sábado, 20 de junho de 2026

O mistério do olhar - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

O mistério

do olhar


Não é dos olhos que se trata. O mistério é

o olhar. Um dia terão perguntado a Hegel o

que se manifesta e vê num olhar. E ele: “o

abismo do mundo”.

Num olhar, o que há é alguém que vem à

janela de si e nos visita. Também por isso,

para tornar alguém anónimo, venda-se-lhe

os olhos. Faz-se o mesmo a um condenado à

morte, porque é intolerável o seu olhar.

Até para nós próprios somos por vezes

terrivelmente estranhos. Quem nunca se

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surpreendeu ao olhar para o seu próprio

olhar no espelho? “Quem é esse ou isso que

me vê, desde o abismo?”

Essa estranheza assalta-nos até no olhar

de um animal: um cão velho e abandonado

que nos olha não nos deixa indiferentes.

Mas é sobretudo o olhar de alguém que é

perturbador. Ele há o olhar triste. O olhar

meigo. O olhar arrogante. O olhar do terror.

O olhar da súplica. O olhar de gozo. O olhar

que baila num sorriso. O olhar concentrado.

O olhar disperso. O olhar da aceitação. O

olhar do desprezo. O olhar compassivo. O

olhar do desespero. O olhar sedutor. O

olhar envergonhado. Ah!, o olhar da

despedida final para sempre! O olhar

morto, que já não é olhar!

O olhar é a presença misteriosa de

alguém, que ao mesmo tempo se desvela e

se vela. Já ao nível do tal cão velho e

abandonado pode erguer-se o sobressalto

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da pergunta: o que é e como é ser cão? Mas

é uma sensação de abismo, um belo dia,

precisamente perante o olhar de alguém,

ficarmos paralisados com a interrogação: o

que é ser alguém outro? Porque a outra

pessoa – o outro homem ou a outra mulher

– não é simplesmente outro eu, mas um eu

outro. Explicitando: o que é e como é ser o

Juan ou a Eunice, viver-se a si mesmo por

dentro como o Juan ou a Eunice? Nunca

saberei. E como é o mundo visto a partir

deles? E como é que ele ou ela me vêem? O

quê e quem sou eu realmente para eles, a

partir do seu olhar?

E como é que eu sei que há o outro, não

enquanto outro eu – ainda no

prolongamento de mim --, mas

precisamente como um eu outro, sujeito

inapreensível? Sartre teorizou que esse

saber é dado de modo indubitável no

sentimento da vergonha. E dá o exemplo de

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alguém que, num hotel, está, concentrado, a

espreitar pelo buraco da fechadura. Ouve

passos no corredor. Então, no sentimento

paralisante da vergonha, ao ficar

objectivado pelo olhar do outro a quem os

passos pertencem, sabe que há um sujeito

que não é ele. Ele é objecto para esse sujeito

que o vê: é visto.

Se a única ou a principal relação com o

outro fosse a da vergonha, não se aguentava

viver, porque “o inferno” seriam “os

outros”.

Seria insuportável estar sob a vigia de um

olhar omnipresente. Por isso, para

Nietzsche, o olhar de Deus é intolerável. Em

A Gaia Ciência, uma miúda pergunta à mãe:

“É verdade que Deus está em toda a

parte?”, respondendo ela própria: “eu

considero isso uma indecência.” Então, em

Assim Falava Zaratustra, escreve: o Deus que

objectiva o Homem “tinha de morrer,

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porque via com olhos que viam tudo. A sua

piedade desconhecia o pudor: ele metia-se

nos meus recantos mais sórdidos.”

Também Jean-Paul Sartre cortou relações

com Deus, o Todo-Poderoso, por causa do

seu olhar horrorosamente indiscreto. “Uma

só vez tive a sensação de que Ele existia.

Brincava com fósforos e queimava um

pequeno tapete; estava eu a dissimular o

meu crime quando, de súbito, Deus viu-me;

eu rodopiava na casa de banho,

horrivelmente visível, um alvo vivo.

Salvou-me a indignação. Blasfemei,

murmurei como o meu avô: ‘Maldito o

nome de Deus, nome de Deus, nome de

Deus’. Nunca mais Ele me contemplou.”

É certo que só vimos a nós pela mediação

do outro. Sem outros eus enquanto tus, não

há eu. Mas será que a única ou mesmo a

principal relação com o outro é a da

vergonha? Entre mim e o outro há uma

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tensão dialéctica: de distância e

proximidade. Afinal, a relação com o outro

pode ser de rivalidade ou de aliança, de

destruição ou de criação. Então,

precisamente no olhar do outro enquanto

próximo inobjectivável, irredutível, de que

não posso dispor, pode revelar-se o apelo

misterioso da proximidade infinita do Deus

infinitamente Outro, que é, como escreveu

Santo Agostinho, intimior intimo meo, , mais

íntimo a mim do que a minha maior

intimidade.

Sábado, 20 de Junho de 2026

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