domingo, 15 de março de 2020

A MAIOR REVOLUÇÃO RELIGIOSA Frei Bento Domingues, O.P.


1. É muito complexa a história do povo samaritano. Segundo a investigação de 2019, existiam apenas 820 samaritanos. Parece que num passado remoto ultrapassaram o milhão[1]. Apesar da sua reduzida expressão numérica actual, a liturgia cristã não os pode esquecer. Ao longo do ano litúrgico, são muitas as referências, extremamente simpáticas, dedicadas a esse povo semita que era detestado pelos judeus por ter conservado, da herança comum, apenas o Pentateuco e ter levantado um lugar de culto rival do templo de Jerusalém. Mas porque será que os textos do Novo Testamento construíram, por contraste, figuras samaritanas que apresentam como exemplares para todos os tempos e lugares?

Esses textos não são as actas factuais do comportamento de Jesus de Nazaré. São interpretações contextuais dos seus atrevimentos, mas não há dúvida que este galileu insólito não suportava aquele ódio fraticida nem a justiça do olho por olho, dente por dente[2]. Esses textos de inapagável beleza atribuem a um judeu a apresentação de figuras samaritanas – figuras de um povo rival – como exemplo do que deve ser um discípulo da Lei Nova do Evangelho. O Nazareno não fazia acepção de pessoas. Tanto curava judeus como samaritanos ou gentios. Eram doentes, e só por isso, deviam ser socorridos sem mais considerações. Mesmo assim, destaca que entre os 10 leprosos curados só um samaritano veio agradecer.

Segundo o Evangelho de S. Mateus, quem mais precisava de conversão era Israel e, por isso, é em primeiro lugar às ovelhas perdidas deste povo que se dirige a intervenção de Jesus[3]. Paulo também começou a sua pregação pelas sinagogas, pelos judeus. Mas depressa descobriu que, em Jesus, não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, não há circunciso e incircunciso, bárbaro, cita, escravo ou livre. O que importa é que a vida e a mensagem de Cristo sejam tudo em todos[4]. Existem, no entanto, narrativas de ruptura, de natureza altamente simbólica, que são dedicadas a exaltar figuras samaritanas. Comecemos por uma que é proclamada, hoje, na Eucaristia e constitui uma radical revolução religiosa. Pertence ao capítulo 4º do Evangelho de S. João e está disponível online.

2. Jesus estava de viagem e parou, em Sicar, cidade da Samaria, enquanto os discípulos foram procurar alimentos. Estava cansado, sozinho, com muita sede e sentou-se junto do famoso poço de Jacob de profundidade excepcional (32 metros!), com água sempre fresca mesmo sob o sol escaldante do meio-dia.

Entretanto, veio uma mulher da Samaria para tirar água. Disse-lhe Jesus: Dá-me de beber. A samaritana espantou-se: Como é         sendo judeu, me pedes de beber, a mim, que sou samaritana? Jesus muda de registo. Se conhecesses o dom que Deus tem para dar e quem te pede: dá-me de beber, tu é que lhe pedirias, e Ele dar-te-ia água viva! A mulher goza com esse despropósito: Senhor, não tens sequer um balde e o poço é fundo... Onde consegues, então, a água viva? Porventura és mais do que o nosso patriarca Jacob, que nos deu este poço donde beberam ele, os seus filhos e os seus rebanhos?

Jesus retoma a iniciativa: Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede; mas, quem beber da água que Eu lhe der, nunca mais terá sede: a água que Eu lhe der há-de tornar-se nele em fonte de água que dá a vida eterna. A mulher aproveita a deixa: Senhor, dá-me dessa água, para eu não ter sede, nem ter de vir cá tirá-la.

Como não era bem visto falar com uma mulher em público sem o marido, Jesus diz-lhe: Vai, chama o teu marido e volta cá. A mulher retorquiu-lhe: Não tenho marido. Jesus revela a situação real desta samaritana extraordinária: Disseste bem: não tenho marido, pois tiveste cinco e o que tens agora não é teu marido. Nisto falaste verdade. A mulher não se deu por achada: Vejo que és um profeta! Então explica-me: Os nossos antepassados adoraram a Deus neste monte, e vós dizeis que o lugar onde se deve adorar está em Jerusalém.

3. Começa a revolução: Jesus declarou-lhe: Mulher, acredita em mim: chegou a hora em que, nem neste monte nem em Jerusalém, haveis de adorar o Pai.

Ainda tentou afirmar a superioridade judaica, mas deu-se conta de que isso já não fazia sentido. Chegou a hora em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são assim os adoradores que o Pai pretende. Deus é espírito; por isso, os que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade.

Ainda hoje, 2020, se procura vencer a violência louca em nome de Deus por meio do diálogo inter-religioso. É a única alternativa defensável. Acontece, porém, que, em muitos desses diálogos, cada um dos intervenientes não vai além de manifestar aquilo em que está de acordo e o que julga inaceitável. Raros são os que fazem a auto crítica das instituições a que pertencem. Os diálogos repetem-se, mas não fazem avançar para uma nova plataforma que os transfigure e transfigure as suas problemáticas religiosas.

O insólito encontro da samaritana com Jesus venceu os preconceitos de que ambos partiram. A mulher pressente em Jesus o Messias esperado e ele confirma-a. O espantoso é que ela abandona o cântaro. Tinha encontrado outra água e vai a correr à cidade levar a boa nova que descobriu. Não pede que acreditem nela. Vai apenas dar o seu testemunho, levantar uma séria interrogação messiânica e propor aos seus conterrâneos que sejam eles a verificar. Foram e pediram a Jesus que ficasse com eles. «Então, muitos mais acreditaram nele por causa da sua pregação e diziam à mulher: Já não é pelas tuas palavras que acreditamos; nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é verdadeiramente o Salvador do mundo». É a única vez que esta confissão pública e solene aparece no Evangelho de João.

A conversa sobre o papel das mulheres na Igreja não avança porque não se liga nada à importância que Jesus lhes atribuiu.



PS: O Evangelho de João é o mais sacramental. É também o da maior revolução religiosa, como vimos. Dadas as circunstâncias do covid-19, não seria de estranhar que a Conferência Episcopal Portuguesa cancelasse as celebrações da Quaresma e da Páscoa que manifestem riscos de contágio. O culto em espírito e verdade não depende das celebrações litúrgicas. Em Lucas, também há um contraste ético entre os zeladores do templo que viram e não ligaram e o herético samaritano que viu e socorreu (Lc 10, 29-37).





15. Março. 2020



[1] Para quem desejar conhecer a história do povo samaritano, a Wikipédia é muito abundante na informação, referindo as fontes em que se baseia.
[2] Lc 9, 52-56
[3] Mt 10, 5-6; Act 8, 5; 13, 44-47.
[4] Gal 3, 27-28; Cl 3, 11

ANIVERSÁRIO DE COMBONI - 15 março 1831


Parabéns a toda a FAMÍLIA COMBONIANA da  Associação de Antigos Alunos Combonianoa.

segunda-feira, 9 de março de 2020

O ESSENCIAL E O SECUNDÁRIO Frei Bento Domingues, O.P.


1. Algumas Igrejas cristãs – católica, ortodoxa, anglicanas, luterana – fazem preceder a Páscoa de um grande retiro, a Quaresma, para vincar que as «cerimónias litúrgicas», sem a transformação da vida, são uma mentira.

Os rituais e tradições da Quaresma podem ser muito diferentes de continente para continente, de país para país e mesmo dentro de cada país, as expressões, sobretudo as da Semana Santa, podem revestir aspectos que uns consideram fidelidade à religião popular e outros apreciam-nas como folclore bizarro para turistas do insólito. Também não falta quem as denuncie como traições à pureza da fé cristã.

Certas tradições foram esquecidas, outras alteradas e são, agora, em muitos casos, objecto de investigação histórica e até de reconstrução etnográfica. Não convém esquecer que foram, por vezes, modos muito criativos de inculturação popular da fé cristã, mais ou menos ortodoxa. O mundo rural em que nasceram e se desenvolveram ou já não existe ou existe de forma tão precária, que as reconstituições parecem sobretudo trabalho de arqueologia da memória. Em algumas zonas do país, onde o clero não impôs a sua ortodoxia oficial, ainda hoje são fiéis às expressões da fé que os alimentaram durante séculos[1].

A reflexão sobre a inculturação do cristianismo tem sido, nos últimos anos, mais pensada do que realizada. Ainda recentemente se falou muito de um novo rito católico para a Amazónia, mas continua por concretizar.

A reforma litúrgica do Vaticano II teve e tem muitos méritos e virtualidades, mas talvez tenha sido demasiado “higiénica”. Preocupou-se, e bem, com a participação dos fiéis que não pode reduzir-se à tradução dos textos litúrgicos e dos regulamentos rituais. Não teve em conta que esta exige um processo de inculturação responsável e criativa que não pode realizar-se nas costas das comunidades cristãs.

A Quaresma deve ensaiar o encontro com o essencial da fé cristã e com as suas diversas expressões simbólicas e éticas de recriação da existência humana. O esquecimento da distinção prática entre o essencial e o secundário, na vida e nas expressões da fé cristã, conduz a impasses na prática pastoral, como se acaba de verificar com o sínodo da Amazónia realizado no Vaticano.

2. A essa distinção já me referi nas últimas crónicas, embora com propósitos diferentes. Neste sentido, convém ter em conta o exemplo de S. Tomás de Aquino. Este filósofo, teólogo e poeta elaborou um guião para os que iniciavam os estudos teológicos que dá pelo nome de Suma de Teologia, uma obra imensa que não pôde concluir. O ambiente universitário vivia sobretudo das chamadas questões disputadas, mas a floresta dessas questões era tão vasta que os principiantes perdiam-se nos seus labirintos. Ao professor competia ensinar a ler e interpretar os textos sagrados e os textos da cultura filosófica e científica da época. A discussão académica não se podia contentar em repetir o credo cristão. Uma teologia da repetição não respondia à questão essencial: como é que é verdade aquilo que confessamos no credo? Sem isto, os fiéis que repetem o credo estão na verdadeira fé, mas de cabeça vazia. O pregador – e Tomás de Aquino tinha entrado na Ordem dos Pregadores – também não pode ser fiel à proposta que faz do Evangelho, contentando-se com divulgar catecismos, devoções ou receitas prontas a servir. Deve preparar-se, como o professor, a saber ler e interpretar os textos sagrados no coração da cultura literária, artística, filosófica e científica dos seus destinatários, que podem ser mais ou menos eruditos. Hoje, diríamos, na linha de um grande discípulo de S. Tomás, o P. Dominique Chenu, devemo-nos inscrever em todos os saberes, de todos os movimentos sociais e culturais, para ler e interpretar os sinais dos tempos.

Na Suma de Teologia, Tomás de Aquino, ao abrir muitas clareiras na floresta, também ele corria o perigo, no meio de tantas questões e distinções, de se perder do essencial. Não aconteceu. Em três breves questões foi directo ao coração da fé cristã e justificou a sua intuição evangélica: Aquilo que há de mais poderoso na lei do Novo Testamento e em que consiste toda a sua energia é a graça do Espírito Santo que é dada pela fé em Cristo. Daí que a Lei Nova seja, principalmente, a própria graça do Espírito Santo que é dada aos fiéis. Tudo o resto vem em segundo lugar, pertence ao reino das mediações para nos dispor ao acolhimento, à expressão e à fidelidade, na vida concreta, a essa graça[2]. Daí resulta uma nova inteligência da fé, uma nova ética e novos sacramentos.

3. Na Suma de Teologia, Tomás de Aquino situou a questão dos sacramentos depois de apresentar Cristo como sacramento. Estes são actos de Cristo que, a partir de um momento histórico, atingem por virtude divina todos os tempos e lugares. Antes desta obra, tinha-se referido à actividade sacramental como causa da graça divina. Os sacramentos entravam, deste modo, no mundo da causalidade eficiente. Na Suma, mudou completamente de perspectiva. Os sacramentos pertencem ao mundo simbólico. Não são uma mecânica divina e humana de produção da graça. Não são coisas, são gestos e palavras significantes que têm a propriedade de realizar aquilo que significam. São uma linguagem performativa. Esta viragem deve modificar completamente a pastoral litúrgica, pois, não actuam automaticamente. Têm de falar do e ao ser humano em todas as suas dimensões: ao seu imaginário, à sua inteligência, aos seus afectos, às suas exigências de beleza, de sentido e de transformação do mundo. Os sacramentos realizam-se numa festa da fé, numa festa do Evangelho. Não favorecem a depressão.

Como escreveu Frei José Augusto Mourão, o pensamento depressivo está naqueles que só falam da transfiguração do mundo, mas são incapazes de transfigurarem a sua própria linguagem. Ora, a linguagem de Jesus é uma linguagem de transfiguração.

Para que as celebrações da Quaresma e da Semana Santa não se percam no ritualismo fundamentalista, importa não se deixar dominar pelo que está mandado ou proibido. Uma festa precisa de um ritual, mas não há nenhum ritual que faça a festa de uma comunidade ou de um povo.

O principal é a transformação da vida pessoal e comunitária, mas esta precisa de ser secundada pela transfiguração da linguagem da fé. Sem esse trabalho, a liturgia torna-se aborrecida, depressiva. Ninguém está obrigado a participar num aborrecimento colectivo.



08. Março. 2020



[1] Cf. Mistérios da Páscoa em Idanha 2019, Câmara Municipal da Idanha-a-Nova, VI Curso Livre sobre Religiosidade Popular. Ruralidade e piedade popular no nosso tempo.
[2] I-II, q. 106-108

segunda-feira, 2 de março de 2020

NÃO BASTAM PALAVRAS Frei Bento Domingues, O.P.


1. As concepções de Igreja que deformaram o Evangelho de Cristo, durante séculos, foram muito alteradas no Vaticano II (1962-1965), mas não foram apagadas. Tiveram muitas reaparições depois, como aliás já comecei a referir no Domingo passado. Por exemplo: o Cardeal Jan Pieter Schotte (1928-2005) foi, no pontificado de João Paulo II, o Secretário Geral do Sínodo dos Bispos de 1985 até 2004. Ao falar do Direito Canónico já revisto, declarou: «Não vos enganeis, na Igreja católica, um pároco não tem de prestar contas a ninguém salvo ao seu bispo; um bispo não tem de prestar contas a ninguém salvo ao Papa; o Papa não tem de prestar contas senão a Deus». Uma declaração destas justifica a observação de Bergoglio, segundo a qual, «o clericalismo engendra uma divisão no corpo eclesial».

O citado Cardeal continuou, mesmo depois do vaticano II, dependente da ideologia do Papa Pio X que, em 1906, descreveu a Igreja como uma «sociedade de essência desigual que compreende duas categorias de pessoas: os pastores e o rebanho. (…) Essas categorias são tão claramente distintas entre si que só no corpo pastoral residem o direito e a autoridade necessários para promover e dirigir todos os membros rumo às finalidades sociais; e que a multidão não tem outro dever senão o de se deixar guiar e de seguir, como um dócil rebanho, os seus Pastores».

Hervé Legrand procurou explorar os fundamentos ideológicos de Pio X e do Cardeal Schotte. Começou pela declaração do Papa Francisco: o clericalismo é favorecido pelos próprios padres ou pelos leigos, dependendo do modo de conceber a autoridade na Igreja.

Bergoglio não quer dizer que essa é a atitude de todos os padres nem de todos os leigos. Refere-se ao mecanismo das suas relações. Em termos sociais, este mecanismo é desencadeado quando os clérigos inculcam nos leigos a ideia do seu não-poder e do seu não-saber, destacando a sua própria superioridade pelo facto de só eles terem recebido a chamada graça da ordenação. O clericalismo não só anula a personalidade dos leigos cristãos, mas também tem a tendência a desvalorizar o essencial da fé: a graça baptismal fruto do Espírito Santo no coração dos fiéis.

De facto, em termos sacramentais, o baptismo é a fonte de toda a vida cristã. A nossa primeira e fundamental consagração tem as suas raízes no baptismo. Isto é tão verdade, na concepção católica da Igreja, que sem baptismo não pode haver nem padres nem bispos.

No entanto, é preciso nunca perder de vista o que dizia S. Tomás: Deus e a sua graça não estão limitados nem condicionados pelos sacramentos. Deus não é comandado pelas ideias que fazemos Dele. Santo Agostinho teve a lucidez de não se deixar enganar pelos rótulos de pertença: muitos dos que estão dentro da Igreja estão fora e muitos dos que estão fora estão dentro.

Por outro lado, é normal que uma fé incarnacionista, como é o cristianismo, disponha de celebrações sacramentais da vida cristã que percorrem todas as etapas da existência humana, nas suas diversas manifestações pessoais e comunitárias. Os cristãos, homens ou mulheres, podem ser chamados a exercer uma função na comunidade por causa da vida da própria comunidade. Esta função não os coloca acima dos outros cristãos. O bispo não é um cristão superior. Tem uma função de serviço na comunidade baptismal, na qual todos são sacerdotes e é só por isso que, indirectamente, lhe chamam sacerdócio ministerial, mas o primado pertence à condição de cristão.

Enquanto isto não for entendido, anda tudo trocado: chama-se Igreja a um edifício, quando este existe para reunir a Igreja, os cristãos; pensa-se que aqueles ou aquelas que usam cabeção, mitra ou chapeu cardinalício, ficam numa situação superior aos outros, subiram de categoria, subiram na carreira. Foi isso que Cristo sempre recusou no relacionamento com os discípulos. De facto, tudo isso não passa de adereços que a história fabricou. Jesus nunca usou cabeção, mitra ou chapeu cardinalício.

2. O Papa Francisco enviou ao povo de Deus e a todas as pessoas de boa vontade a Exortação Apostólica Pós-Sinodal, Querida Amazónia.

Insiste que a Igreja é chamada a caminhar com os povos da Amazónia. Lembra que, na América Latina, esta caminhada teve expressões privilegiadas, como a Conferência dos Bispos em Medellín e a sua aplicação à Amazónia em Santarém; em Puebla, em Santo Domingo e na Aparecida. O caminho continua e o trabalho missionário, se quiser desenvolver uma Igreja com rosto amazónico, precisa de crescer numa cultura do encontro rumo a uma «harmonia pluriforme. Mas, para tornar possível esta encarnação da Igreja e do Evangelho, deve ressoar incessantemente o grande anúncio missionário.

Teve sonhos admiráveis de olhos muito abertos: um sonho social, um sonho cultural, um sonho ecológico e um sonho eclesial. Todos esses sonhos precisam de ser concretizados, inculturados. É um documento notável e que todas as pessoas de boa vontade e de amor à casa comum deviam ler, reler e tirar conclusões para a sua vida, para a sua prática.

3. Não é por acaso que, de todos os sonhos do Papa Francisco, só foi travado o sonho eclesial nas suas diversas inculturações.

Afirma, com toda a verdade, que não podem existir comunidades cristãs sem Eucaristia. Diz, também, que a sua presidência supõe o ministério ordenado dos padres e dos bispos que assumam a cultura e a vida cristã das comunidades, constituídas por homens e mulheres com uma grande diversidade de carismas. Mostrou que na querida Amazónia existem comunidades católicas fervorosas.

É impossível que não existam candidatos à ordenação. O que falta é clarividência e vontade dos bispos para discernir quem, casado ou solteiro, homem ou mulher, esteja em condições de poder assumir o ministério da presidência da Eucaristia.

Os grandes teólogos do Vaticano II, Edward Schillebeeckx e Yves Congar, já o escreveram há muitos anos. O primeiro diz textualmente: «constatando que esta penúria de ministros é uma situação eclesialmente insustentável, que não tem razão de ser, eu peço que se imponham as mãos aos membros crentes comprometidos no serviço das Igrejas, durante uma epiclese adequadamente formulada, criando assim uma nova diferença dos ministérios qualificados. Há numerosos candidatos. O obstáculo está então noutro lugar». Y. Congar diz que «estas linhas… eu posso subscrever»[1].

O documento do Papa é longo e magnífico em quase tudo. Para não ficar só em palavras, precisava de uma decisão urgente que não aconteceu.



01. Março. 2020



[1] Para estas referências e para todo este debate ver: José Nunes, O.P., Pequenas comunidades cristãs. O Ondjango e a inculturação em África / Angola, UCP, Porto 1991, 294-300.

A caminho da páscoa...Pe Armindo Janeiro

Diz-nos o calendário, está na hora! Comecemos a preparar a Páscoa do Senhor!
É um convite para a Festa: Deus não desiste de nós! Ainda que nós cheguemos a fazê-lo, desistindo d’Ele, uns dos outros e até de nós mesmos, Ele nunca o fez nem nunca o fará (Sl 27,10)! A história de Deus com o seu Povo assim no-lo recorda e a Páscoa do Senhor o atesta de um modo único e definitivo!
Podemos não nos sentir preparados e até incapazes, pelo cansaço, desilusões, frustrações e tantas outras razões, mas Ele do alto da cruz atrai o nosso olhar (Jo 12,32) e reinventa-nos todas as perguntas que a rotina, a indiferença e as contradições da vida, tanto pessoais como institucionais, tanto sociais como culturais já tinham ou vão soterrando…
Porque te deixaste conduzir assim, por entre ódios e invejas, desejos de vingança e vontade de poder, desesperos e mentiras, aceitando tudo o que te quiseram fazer na tua própria carne, que é a nossa? Porque te remeteste ao silêncio, sem procurares defesa, nem da terra nem do Céu (Mt 26,53)?
Há tantos exemplos de crueldade na história da Humanidade que não precisávamos de a ver repetida em Ti! Porque quiseste fazer este percurso trágico da história dos Povos? Porque deixaste que sobre Ti se abatessem todos os abismos do mal, do pecado e da morte?
Só me ocorre uma resposta: porque para Ti somos importantes (Jo 15,13), somos mais preciosos que todos os sofrimentos que padeceste! Assim te fizeste próximo de todas as vítimas, de qualquer tempo e lugar; assim nos acompanhas, como luz e guia, no meio das nossas alegrias e esperanças, dores e tristezas, dando-nos o exemplo para que nos ajudemos, solidariamente, a levar a cruz de todos os dias, ensinando-nos a confiar sempre em Deus!
Mas, que Amor é este que ultrapassa todas as barreiras, todas as fronteiras sem se recusar a nada para que os Amados vejam, sintam, compreendam e gravem no fundo do seu coração o quanto lhes queres bem e deles cuidas? Mais, se este é o projecto  radical do Amante – Deus – que não tira a vida, mas a quer dar em abundância (Jo 10,10) aos Amados – todos nós –, quem será capaz de intuir, vislumbrar apenas, o quão belo e sublime será para nós o cumprir-se do desígnio amoroso de Deus, no tempo e para a eternidade?!
Se a força deste Amor é capaz de abraçar o escândalo do sofrimento, do pecado e da morte, abrindo caminho para a Ressurreição de Jesus, seu Filho muito amado (Mt 17,5), fonte de vida nova para todos os que n’Ele acreditam, então preparemo-nos para a Festa do Amor e da Vida, com gestos novos e/ou renovados de serviço aos irmãos, porque jamais passou pela mente e pelo coração do homem o que Deus preparou para aqueles que O amam (1Cor 2,9). A todos desejo uma santa caminhada quaresmal.
P. Armindo Janeiro
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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

ACABAR COM O CLERICALISMO Frei Bento Domingues, O.P.

Um pouco incendiário, mas os teólogos foram sempre provocadores….


1. Para acabar com o clericalismo que o Papa Francisco tantas vezes tem denunciado, importa desconstruir a eclesiologia que o produz e fundamenta. Sem esse trabalho, a concepção de Igreja do Direito canónico, que vigorou desde 1917 até 1983, desde Pio X até ao Vaticano II, reaparecerá quando menos se espera. Nessa eclesiologia o clero era tudo, tinha a primeira e a última palavra. Ao laicado restava-lhe ouvir, obedecer e sustentar o clero.

Nunca faltaram minorias para contestar esse culto da passividade perante uma hierarquia que se julgava omnisciente e omnipotente em nome de Deus[1].

Sem a desconstrução desse mundo de fantasias e práticas autoritárias, é impossível encontrar o que é essencial, o que é secundário e o que é de rejeitar na caminhada cristã. Sem essa redescoberta, continuaremos a construir sobre a areia, a alimentar ilusões com novas embalagens religiosas de produtos de fraca qualidade.

O Vaticano II iniciou, oficialmente, essa desconstrução, essa tentativa de encontro com o essencial da fé cristã. Ficou muito aquém do que era necessário e ainda nem sequer foi interiorizada a grandeza da sua mudança de perspectiva e de conteúdo.

No trabalho de desconstrução, D. António Ferreira Gomes, nas Cartas ao Papa[2], lembrou que um bispo português – Frei Bartolomeu dos Mártires – tinha proposto, no Concílio de Trento, uma eminentíssima e reverendíssima reforma dos cardeais. D. António disse que isso já não bastava. Toda a reforma será baldada se não incluir o desaparecimento da função cardinalícia. Esta merece um bom funeral.

Depois de tanta exortação à reforma dos cardeais, da cúria, Bergoglio talvez venha a reconhecer a perspicácia da proposta radical do antigo Bispo do Porto.

Santo Agostinho encontrou o rumo certo: «Atemoriza-me o que sou para vós; consola-me o que sou convosco. Pois para vós sou Bispo; convosco sou cristão. Aquilo é um dever; isto, uma graça. O primeiro é um perigo; o segundo, a salvação».

Tomás de Aquino, na Summa Theologiae[3], foi directo ao essencial, ao que ainda continua ignorado na prática pastoral, sacramental e litúrgica: «o que há de mais poderoso na lei do Novo Testamento e, no qual, consiste toda a sua energia é a graça do Espírito Santo que é dada pela fé em Cristo. A Lei Nova é principalmente a graça do Espírito Santo». Tudo o resto é só para apoiar e exprimir esta centralidade.

Ele próprio lembra a 2ª Carta aos Coríntios – a letra mata, o espírito vivifica – assim como o comentário de Santo Agostinho: «por letra entende-se todo o texto escrito, objectivamente existente fora de nós, inclusive os preceitos morais contidos no Evangelho; mataria também a própria letra do Evangelho se, interiormente, não estivesse presente a graça da fé».

 Segundo a Carta aos Hebreus, Jesus era em tudo semelhante aos seus irmãos para ser um sumo-sacerdote misericordioso e fiel no serviço de Deus[4]. Estes irmãos de Cristo participam do seu sacerdócio. Como também diz o primeiro Papa, S. Pedro, «Vós sois linhagem escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Ele»[5].

O culto dos irmãos de Cristo sacerdote foi expresso na Carta aos Romanos: exorto-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais os vossos corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus. Seja este o vosso verdadeiro culto, o espiritual[6].

Na Carta aos Gálatas, Paulo é ainda mais acutilante: «Todos vós sois filhos de Deus em Cristo Jesus, mediante a fé; pois todos os que fostes baptizados em Cristo revestistes-vos de Cristo mediante a fé. Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus[7].

2. Esta é a verdadeira eclesiologia de comunhão. A diferença natural entre homens e mulheres não é abolida no renascimento simbolizado pelo baptismo, mas em Cristo os homens não são mais cristãos do que as mulheres, não são mais sacerdotes do que as mulheres. No Novo Testamento, o vocabulário sacerdotal é exclusivo de Cristo e dos irmãos de Cristo, sejam homens sejam mulheres.

Os ministérios, isto é, os serviços da comunidade cristã, não são designados como sacerdotais. Com o desenrolar da história da Igreja, confiscaram o vocabulário sacerdotal para os presbíteros e para os bispos. Na realidade, só podem ser designados como sacerdotes indirectamente: estão ao serviço do povo sacerdotal de Cristo.

A Lumen Gentium, nº 10, reconhece «o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial ou hierárquico, embora se diferenciem essencialmente e não apenas em grau, ordenam-se mutuamente um ao outro; pois um e outro participam, a seu modo, do único sacerdócio de Cristo».

A desgraça é que o segundo passou a ser o principal. E o principal, o sacerdócio comum dos fiéis, passou para segundo plano ou completamente esquecido. O clero confiscou a realidade sacerdotal de todo o povo cristão por causa de uma distinção real, mas formulada de forma ambígua. A liturgia eucarística é obra de toda a comunidade e não, apenas, dos padres e dos bispos. A todos pertence tornar visível, palpável, sensível a presença invisível de Cristo nas celebrações. Ninguém faz as vezes de Cristo, ninguém O substitui.

3. Como observa o grande eclesiólogo dominicano já citado, Hervé Legrand, «é difícil negar que, ao longo da história, se tornaram sobreavaliados teologicamente os efeitos da ordenação. Descreve-se o “sacerdote” como outro Cristo, mediador entre Deus e os homens e “sacerdote” para a eternidade». Referindo-se a Jean-Jacques Olier, transcreve algo verdadeiramente delirante: os chamados sacerdotes são «as fontes fecundas inesgotáveis de todas as graças; tudo o que se realiza de santo, de grande e de divino, na Igreja, emana deles e opera pelo seu santo ministério. O sacerdote participa com o Pai e com o Filho no poder de enviar o Espírito Santo ao mundo».

A Lumen Gentium tentou reequilibrar eclesiologias quase opostas. Esta reconstrução precisa de ser refeita. De outro modo, esbarramos com as dificuldades e as confusões que não foram superadas na Carta sobre o Sínodo da Amazónia. Temos que voltar a este assunto.



23. 02. 2020



[1] Hervé Legrand, Abusos sexuales y clericalismo, in Selecciones de Teología, Vol. 58 (2019), nº 232, 362-370
[2] Cartas ao Papa, Figueirinhas, Porto , 2ª edição 1987, Carta XII, 241-250
[3] I-II q. 106-108
[4]  Hb 2, 14-18
[5]  1Pd 2, 9
[6] Rm 12, 1
[7] Gal 3, 27-28

domingo, 2 de fevereiro de 2020

DE INCENDIÁRIO A BOMBEIRO Frei Bento Domingues, O.P.


1. Comecei esta crónica a 28 do mês passado, dia da festa litúrgica de S. Tomás de Aquino. Este dominicano nasceu em 1224/1225 e morreu a 7 de Março de 1274. Era este, aliás, o dia tradicional da sua festa.

Foi condenado no terceiro aniversário da sua morte, pelo Bispo de Paris, E. Tempier, canonizado por João XXII em 1323 e declarado Doutor da Igreja a 28 de Janeiro de 1567 por Pio V.

Leão XIII, em 1892, atreveu-se a dizer que «se se encontram doutores em desacordo com S. Tomás, qualquer que seja o seu mérito, a hesitação não é permitida: sejam os primeiros sacrificados ao segundo». O Concílio Vaticano II aconselhou que S. Tomás seja seguido nos Seminários e nas Universidades católicas. Paulo VI, comentando esse facto, disse: «é a primeira vez que um Concílio Ecuménico recomenda um teólogo e este é, precisamente, S. Tomás de Aquino».

2. Umberto Eco fez uma tese sobre a estética de S. Tomás de Aquino e nunca mais esqueceu esse revolucionário que, «em quarenta anos, mudou toda a política cultural do mundo cristão». Desconstruiu, com ternura e humor, o rol de sufocantes e vazios panegíricos eclesiásticos. Não considerou que a desgraça de frei Tomás de Aquino tenha sido a sua condenação por Tempier nem pelas condenações que se seguiram em Oxford até 1284. O que arruinou a sua carreira aconteceu em 1323, dois anos depois da morte de Dante, precisamente quando João XXII o canonizou. Fez dele "São" Tomás de Aquino! Aventura ingrata. É como receber o Prémio Nobel, entrar na Academia de França, ganhar um Óscar. Passa-se a ser como a Gioconda: um cliché. É o momento em que um grande incendiário é nomeado bombeiro[1].

 No sétimo centenário da sua morte, perguntou U. Eco: o que faria este teólogo se vivesse hoje? Os seus comentários já não seriam sobre Aristóteles e «aperceber-se-ia que não podia nem devia elaborar um sistema definitivo, como uma arquitectura acabada, mas uma espécie de sistema móvel, uma Suma de folhas substituíveis, porque na sua enciclopédia das ciências entraria a noção de provisoriedade histórica. Não sei dizer se ainda seria cristão. Julgo que sim. Sei, de certeza, que participaria nas suas comemorações apenas para nos recordar que não se trata de decidir como usar ainda aquilo que ele pensou, mas de pensar outra coisa. Ou, no máximo, de aprender com ele como fazer para pensar com limpeza, como um homem do nosso tempo. Depois disso, não queria estar na sua pele»[2].

Tomás de Aquino separou-se do positivismo teológico que o precedeu, do uso de exclusivos argumentos da autoridade revelada, que apenas documentam a fé, mas não explicam como é que é verdade aquilo que a Igreja confessa ser verdade. A fé cristã não é um calmante, mas o excitante da inteligência e dos afectos. Não cultiva a ignorância em nome de Deus, cuja existência não é evidente. Não dispensa, mesmo no interior da fé, os caminhos para a afirmação da Sua existência, não procurando, porém, saber como Deus é – algo impossível – mas, sobretudo, como Deus não é[3]. Uma teologia anti idolátrica.

Trabalhou num contexto de grande efervescência cultural, no encontro do pensamento grego, árabe, judaico e latino. Na sua elaboração teológica, convergiam todos os saberes do seu tempo. Como diz K. Rahner, um dos seus discípulos do século XX, Tomás é um místico consciente de que Deus está para além de qualquer possibilidade de expressão, mas nunca cedeu à preguiça mental e à mediocridade intelectual; não dispensava o exercício da inteligência mesmo no acolhimento da revelação da esperança[4].

Sustentava que, de Deus, tanto mais saberemos quanto mais nos dermos conta de que não sabemos. Da sua experiência mística, no final da vida, brotou a confissão: tudo o que escrevi parece-me palha! No entanto, cantou numa belíssima poesia iluminista: atreve-te quanto puderes! Em suma: ousar e ser lúcido acerca dos limites da nossa ousadia.

Não é fácil de entender como conseguiu produzir uma obra filosófica, bíblica e teológica tão vasta em tão poucos anos. Do próprio punho não escreveu muito. Tinha má caligrafia, mas uma inteligência luminosa, uma memória extraordinária ao serviço de uma investigação constante. As oscilações de opinião eram pautadas pelas novas bibliotecas que frequentava, segundo o itinerário das suas viagens. Quem lhe valeu foram os secretários a quem ditava, por vezes, a 3 ao mesmo tempo.

Era muito sereno e silencioso, mas se o provocavam, não recusava a polémica e não se exprimia como um santinho. Bebeu em todas fontes de conhecimento que o seu mestre, o enciclopédico Alberto Magno, lhe proporcionou[5].

 3. O caminho que abriu não é bem servido pela ignorância do seu legado – filosófico e teológico – nem pela sua obsessiva repetição. Ser discípulo é ser fiel ao espírito da sua criatividade, ter a noção da mudança cultural, introduzida pelo Renascimento. Assim aconteceu, nos séculos XV e XVI, perante a descoberta do Novo Mundo de muitas culturas.

No século XX, os repetidores de S. Tomás foram os seus coveiros, mas os que entraram no seu espírito, no meio de muita repressão do Santo Ofício, conseguiram obras e realizações de ousada criatividade. Estou a lembrar-me das fundações da Escola Bíblica de Jerusalém, do Instituto Dominicano de Estudos Orientais (Cairo), das Edições do Cerf, do Centro francês de pastoral litúrgica, do Centro Economia e Humanismo do P. Lebret, dos movimentos de renovação da arte sacra de A. Couturier e P. Regamey, da música litúrgica de A. Gouzes, das propostas e das práticas de teologia literária, como as de J.-P. Jossua e J. A. Mourão. Os teólogos que prepararam e marcaram o Vaticano II, de forma muito sofrida, como D. Chenu, Y. Congar, E. Schillebeeck, são mundialmente conhecidos e estudados.

Há muitos desafios novos no campo teológico. O Papa Francisco tem dirigido repetidas exortações à teologia que falta fazer no mundo actual. Não tem sido muito bem sucedido, mas enquanto há vida, há esperança de conversão[6].

Que a criatividade de Tomás de Aquino nos ajude e nos afaste dos repetidores do mesmo.



02. 02. 2020





[1] Cf. Um Santo inquietante (29.01.2006)
[2] Cf. Suma Teológica de folhas substituíveis (31.01.2010)
[3] I q.3, prol.
[4] Cf. Regressam as interrogações fundamentais (29.01.2012)
[5] Aconselho Mário A. Santiago de Carvalho, Ler São Tomás, Hoje? In Revista Filosófica de Coimbra, nº 7, Vol. 4 (1995), pp. 103-130. Está disponível na Internet. Ver também do mesmo autor, Tomás de Aquino. O ente e a essência, Afrontamento 2013 com boa selecção bibliográfica.
[6] Cf. Jesús Angel Barreda, O.P., «Teología» y «Teólogos» en el pensamiento del Papa Francisco, in Studium, Vol. LIX, Fasc.3 (2019), 355-396