domingo, 8 de março de 2026

As mulheres na Igreja - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 As mulheres

na Igreja


1. Retorno ao tema, pois é de actualidade

candente e amanhã, 8 de Março, é o Dia

Internacional da Mulher; faço-o, solidarizando-me

com todos os que lutam contra a misoginia da

Igreja — atendendo à data, nomeadamente muitas

associações de mulheres apresentaram protestos

—, e retomando o que já aqui escrevi em 2011:

“As mulheres têm motivo para estar zangadas com

a Igreja, que as discrimina. Jesus, porém, não só

não as discriminou como foi um autêntico

revolucionário na sua dignificação, até ao

escândalo.”

Veja-se a estranheza dos discípulos ao encontrar

Jesus com a samaritana, que tinha tudo contra ela:

mulher, estrangeira, herética, com o sexto marido,

mas foi a ela que se revelou como o Messias.

Condenou a desigualdade de tratamento de

homens e mulheres quanto ao divórcio. Fez-se

acompanhar — coisa inédita e mesmo escandalosa

na época — por discípulos e discípulas. Acabou com

o tabu da impureza ritual. Estabeleceu relações de

verdadeira amizade com algumas. Maria Madalena

constitui um caso especial nessa amizade: ela

acompanhou-o desde o início até à morte e foi ela

que primeiro intuiu e fez a experiência

avassaladora de fé de que o Jesus crucificado não

foi entregue à morte para sempre, pois é o Vivente

em Deus, está vivo em Deus para sempre como

esperança e desafio para todos os que crêem nele,

a ponto de Santo Tomás de Aquino e outros,

apesar da sua misoginia, a declararem a “Apóstola

dos Apóstolos”, precisamente por causa do seu

papel fundamental na convocação dos outros

discípulos para a fé na Ressurreição: na morte, não

caímos no nada, pois entramos na plenitude da

vida em Deus, Deus de vivos e não de mortos.

Aliás, já São Paulo, na Carta aos Romanos, pede

que saúdem Júnia, “Apóstola exímia”.

2. Num dos seus últimos escritos antes da morte,

o grande teólogo José M. Castillo — faleceu em

2023 — veio lembrar isso precisamente. Quando se

lê os Evangelhos, o que constatamos é que Jesus

teve conflitos e confrontos com vários grupos,

desde as mais altas autoridades religiosas até aos

discípulos que o acompanhavam: a Pedro, por

exemplo, chegou a chamar-lhe Satanás. Mas há

um dado que “chama poderosamente a atenção:

as mulheres são o único grupo com o qual Jesus

não teve problema algum, inclusivamente naquele

caso da mulher cananeia que suplicava a cura da

sua filha doente; parece que Jesus lhe deu uma má

resposta, mas o carinho daquela mãe foi tão

intenso que até fez Jesus dizer: ‘Mulher, como é

grande a tua fé!’. E a filha ficou curada.”

Castillo insiste que Jesus esteve sempre do lado

das mulheres, mesmo quando eram adúlteras ou

prostitutas. Jesus deixou que uma mulher o

perfumasse com perfume caro, ou lhe beijasse os

pés com lágrimas e lhos enxugasse com os

cabelos. E foram as mulheres que se mantiveram

sempre fiéis no caminho do Calvário e depois da

morte, diante da Cruz. E foram as primeiras

testemunhas do Ressuscitado, do Jesus vivo em

Deus para sempre.

E, atravessando a história da Igreja, lança a

pergunta: “Como é possível o que está a

acontecer? Se há tantos bispos que vivem em

palácios, usam vestimentas que já ninguém usa,

têm privilégios que ninguém mais tem, julgam ter

poderes que Deus lhes deu a eles e a mais

ninguém, não é lógico e inevitável que na Igreja

esteja a acontecer o que todos vemos?” E conclui:

“Como é possível que as mulheres continuem nesta

Igreja que as marginaliza, as exclui, as anula em

tantas coisas...? Porque é que hão-de continuar

numa Igreja que, apoiada em séculos, nega e

resiste a que celebrem Missa ou que possam ser

esposas de padres? Se Jesus não proibiu nada

disso, porque é que havemos de ser nós a proibir

e, para cúmulo, ficando com a consciência do dever

cumprido? O que é mais importante: agradar a uns

tantos cardeais ou servir toda a gente?”

3. A Igreja continua a ser um dos maiores

esteios da sociedade patriarcal. Até

inconscientemente, com a doutrina tradicional,

embora esta não encontre apoio no Evangelho.

Dou três exemplos.

Eva, que estaria, segundo a doutrina tradicional,

a partir de uma leitura literal da Bíblia, na base do

“pecado original”, criou a imagem da mulher

tentadora, associada ao pecado.

Quando João Paulo I se referiu a Deus como

Mãe foi um escândalo tal que não faltaram os

protestos, clamando que Deus é Pai e não Mãe.

Para esta visão, contribuiu também o

desconhecimento da biologia. De facto, o óvulo

feminino só foi descoberto em 1827. Por isso, na

geração, a mulher era passiva e não activa. Neste

quadro, nunca se poderia rezar o Credo,

começando assim: “Creio em um só Deus, Mãe

toda-poderosa, criadora dos céus e da terra...”

nem rezar o “Pai Nosso”, dizendo “Mãe Nossa”.

Mas, em relação a esta concepção, é preciso tomar

consciência de que Deus está para lá da

determinação sexual e, por isso, tanto nos

podemos dirigir a Ele como Pai ou como Mãe,

melhor: Pai-Mãe...

Também se diz que Deus encarnou no homem

Jesus. Sim, esta afirmação é clara para a fé cristã,

desde que não se ignore que, no Evangelho de São

João, se lê que o Logos, que é Deus, se fez carne,

no sentido de humanidade frágil. De facto, a

palavra utilizada no original grego é “sárx”, que

significa precisamente a humanidade enquanto

frágil, e não “anér, andrós”, que se refere ao

homem masculino (daí, andrologia e

androcentrismo). Deus manifestou-se, revelou-se a

todo o ser humano, na humanidade frágil do

homem Jesus.

Neste contexto, pergunta-se: a mulher não

poderá presidir à Eucaristia? Já há anos, o então

cardeal-patriarca de Lisboa, José Policarpo, que

sabia Teologia, fez uma declaração que teve muito

eco nos média, inclusive estrangeiros:

“Teologicamente não há nenhum obstáculo

fundamental” à ordenação de mulheres. A recusa

baseia-se apenas na tradição. É evidente que,

perante esta afirmação, os protestos choveram e o

meu amigo cardeal José Policarpo, por pressão do

Vaticano, teve de recuar, dando esclarecimentos.

Mas, evidentemente, era ele que tinha razão, como

também outros cardeais reconhecem.

Para contrapor, invoca-se que na Última Ceia não

houve mulheres. Ora, esta afirmação é contestada

por grandes exegetas. De qualquer modo, onde é

que está que Jesus ordenou alguém “in sacris”

naquela noite? Mais: o famoso biblista, talvez o

maior exegeta do século XX, Herbert Haag, da

Universidade de Tubinga, com quem tive o

privilégio de privar, ironizou: como eram só judeus

os presentes, então a Igreja devia ordenar só

homens judeus!... Sobretudo: é sabido que as

primeiras comunidades cristãs — não havia igrejas

nem capelas nem basílicas ou catedrais — se

reuniam na casa de cristãos mais abastados, pois

sempre teriam uma casa mais ampla, e quem

presidia era o dono ou a dona da casa. Então, se já

foi possível mulheres presidirem à Eucaristia...

A questão da mulher na Igreja tem, pois, de ser

revista. Para não ferir o que Jesus disse: “Sois

todos irmãos e iguais” nem este princípio

fundamental do Concílio Vaticano II: “Toda a forma

de discriminação nos direitos fundamentais da

pessoa por razão do sexo deve ser vencida e

eliminada, por ser contrária ao plano divino.”

Afinal, a linguagem que nos leva a dizer: “a

Igreja discrimina as mulheres” revela bem onde

reside o nervo do problema. Que Igreja é que

discrimina? Quem é a Igreja? Evidentemente, ao

dizer que a Igreja discrimina as mulheres, estamos

a referir-nos à Igreja hierárquica: Papa, cardeais,

bispos, padres, cónegos, monsenhores — com duas

classes: clero e leigos —, quando o que Jesus

queria era a Igreja como comunidade de

comunidades, que obriga a dizer: “a Igreja somos

nós”, a comunidade dos baptizados, homens e

mulheres, uma comunidade de iguais, com

carismas e ministérios vários ao serviço de todos,

entre eles, o da presidência da Eucaristia, exercido

por homens ou mulheres.

Sábado, 7 de Março de 2026

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