Crónicas PÁRA E PENSA
As tentações da Igreja
Terminada a festa do Carnaval, os cristãos entram na
Quaresma, que consiste em quarenta dias de mais profunda
meditação, de mais intensa conversão, de amor mais vivo, mais
activo e perfeito, em ordem a poderem celebrar com mais
dignidade a Páscoa do Senhor enquanto passagem da morte à
vida, à plenitude da vida, a vida eterna.
De modo significativo, no primeiro domingo da Quaresma, lê-
se sempre a passagem do Evangelho referente às tentações de
Jesus. Ora, é importante sublinhar que as três tentações estão
todas referidas ao poder: poder económico, poder religioso,
poder político... Jesus, antes de iniciar a sua vida pública, teve de
decidir se queria ser um Messias político, do poder, ou um
Messias do amor, do serviço. Foi por esta segunda alternativa
que seguiu: Ele vinha para anunciar o Evangelho, notícia boa e
felicitante, a melhor notícia que a humanidade ouviu ao longo da
sua história: Deus é bom, Pai-Mãe, e só quer o bem, a alegria, a
felicidade, a plena realização de todos… Por isso, a mensagem
era clara: "Eu não vim para ser servido, mas para servir", e servir
até dar a vida.
Assim, a única verdadeira tentação, segundo o Evangelho, é a
do poder, no sentido do domínio sobre os outros, humilhando,
oprimindo, discriminando, obrigando à fome, à violência, à
guerra, à morte, com uma cultura imperialista e,
consequentemente, militarista...
Evidentemente, em qualquer sociedade o poder é necessário,
inevitável. Toda a questão consiste em saber como é que ele é
exercido e com que finalidade. Quantos se lembram que
Ministro, na sua etimologia, significa pura e simplesmente
servente, aquele que serve? Primeiro-Ministro é o que está à
frente no serviço. Jesus disse aos discípulos, portanto, também ao
papa, bispos, cardeais, padres: "Sabeis que os chefes das nações
governam-nas como seus senhores. Não seja assim entre vós;
pelo contrário, quem quiser fazer-se grande entre vós seja vosso
servo".
Jesus renunciou ao poder enquanto domínio, mas é referido
frequentemente no Evangelho que ensinava com autoridade. A
palavra autoridade vem do verbo latino augere, que significa
aumentar. Ter autoridade tem, portanto, a ver com fazer crescer,
aumentar no ser. Cá está: servir. O poder legitima-se enquanto
serviço de fazer crescer na liberdade, na justiça, na dignidade, no
bem comum...Presidentes, ministros, bispos, jornalistas, pais,
professores, padres, polícias... exercem legitimamente o poder
enquanto autoridade, quando ele faz crescer... Assim, não são
apenas os súbditos que devem obedecer. A palavra obediência
também tem a sua origem no latim: obaudire, que significa ouvir.
Então, os que têm poder legítimo, começando pelos pais, são os
primeiros a ter de obedecer, isto é, a ter de ouvir aqueles que
precisam que lhes seja feita justiça, ouvir a própria consciência,
ouvir o apelo de todos aqueles que clamam por mais liberdade e
dignidade...
Não há superiores e inferiores. Há apenas homens e mulheres
iguais em dignidade. E alguns estão constituídos em poder, que
devem exercer como serviço a essa dignidade inviolável… Aqui,
questão substancial é haver poder formal não acompanhado da
necessária autoridade, competência pessoal.
Quando se fala em Igreja, é difícil não se ser, por princípio,
imediatamente confrontado com uma situação de desconforto.
Este mal-estar não é pertença exclusiva de ateus ou agnósticos:
os próprios cristãos, mesmo cristãos católicos, podem ter uma má
relação com a Igreja. De facto, a Igreja aparece-lhes
frequentemente como uma hierarquia soberana e longínqua, que
comanda, que proíbe, não se percebendo muitas vezes se essas
ordens e proibições querem realmente o bem das pessoas ou, se,
pelo contrário, não são expressão disfarçada de interesses
económicos e políticos, enfim, do poder... Lá está o poder sacro
com os seus abusos: abusos de poder, de consciência, sexuais…
Num primeiro momento pelo menos, a Igreja surge como uma
hiperorganização, tendo à frente um monarca (o Papa), com os
seus ministros (cardeais da Cúria romana, a famosa “corte”, que
tantos dissabores causou a Francisco), e também altos
funcionários (núncios ou embaixadores do Vaticano, espalhados
pelas capitais dos Estados do mundo, e bispos) e ainda médios e
pequenos funcionários (monsenhores, cónegos, padres)...
Mas não devia ser assim. De facto, a palavra igreja em português
(iglesia em castelhano, église em francês) vem do grego
Ekklesía. Ora, a Ekklesía era a assembleia do povo reunido. No
alemão (Kirche), no inglês (Church), etc., a origem é outra:
Kyrike (forma popular bizantina), com o significado de
"pertencente ao Senhor" (Kyrios) e, por extensão, "casa ou
comunidade do Senhor". De qualquer modo, na dupla etimologia,
a Igreja, no Novo Testamento, significa a assembleia daqueles
que acreditam em Jesus, que crêem nele como o Messias e se
tornaram seus discípulos, querendo, portanto, segui-lo, fazendo
durante a vida o que ele fez e confiando nele na própria morte,
esperando também a plenitude da vida em Deus, a vida eterna. A
Igreja desde o início considerou-se a si mesma como a
assembleia dos fiéis a Cristo, dos que pertencem ao Senhor: o
sinal dessa pertença era o baptismo e reuniam-se, celebrando, na
Ceia, a sua memória, até que ele venha.
Evidentemente, sendo constituída por homens e mulheres, a
Igreja precisou de dar-se a si mesma o mínimo de organização.
Por isso, nela, há diferentes funções e serviços. A palavra
correcta é precisamente serviços. Significativamente, o Novo
Testamento não fala de hierarquia (poder sagrado), mas de
diakonia, que quer dizer ministério, serviço (mas, repito, também
os Ministros não esqueceram já que ministro é aquele que presta
um serviço?).
Que é que isto tudo quer dizer? A Igreja não é, na sua raiz,
uma hiperorganização, mas assembleia convocada por Deus e
reunida em Jesus, o Cristo. Então, o papa, antes de papa, é
cristão; o bispo, antes de ser bispo, é cristão, um seguidor de
Cristo; um cardeal, um cónego, um padre são discípulos de
Cristo, que têm uma missão de serviço. Que devem servir,
precisamente como qualquer cristão. Não há de um lado a
hierarquia que manda e do outro os cristãos leigos que
obedecem. Há sim a comunidade dos que acreditam em Jesus,
que procuram ser seus discípulos e que obedecem uns aos outros,
escutando-se uns aos outros, no Espírito Santo, e que prestam
serviços uns aos outros e a todos as pessoas, segundo os dons e
as tarefas que foram dados a cada um para bem de todos.
Neste sentido, não se acredita propriamente na Igreja; o que o
cristão faz é professar e praticar a fé em Jesus e no Deus de Jesus
em Igreja, a comunidade dos que acreditam.
Sábado, 28 de Fevereiro de 2026
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