sábado, 28 de fevereiro de 2026

As tentações da Igreja Anselmo Borges - Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

As tentações da Igreja


Terminada a festa do Carnaval, os cristãos entram na

Quaresma, que consiste em quarenta dias de mais profunda

meditação, de mais intensa conversão, de amor mais vivo, mais

activo e perfeito, em ordem a poderem celebrar com mais

dignidade a Páscoa do Senhor enquanto passagem da morte à

vida, à plenitude da vida, a vida eterna.

De modo significativo, no primeiro domingo da Quaresma, lê-

se sempre a passagem do Evangelho referente às tentações de

Jesus. Ora, é importante sublinhar que as três tentações estão

todas referidas ao poder: poder económico, poder religioso,

poder político... Jesus, antes de iniciar a sua vida pública, teve de

decidir se queria ser um Messias político, do poder, ou um

Messias do amor, do serviço. Foi por esta segunda alternativa

que seguiu: Ele vinha para anunciar o Evangelho, notícia boa e

felicitante, a melhor notícia que a humanidade ouviu ao longo da

sua história: Deus é bom, Pai-Mãe, e só quer o bem, a alegria, a

felicidade, a plena realização de todos… Por isso, a mensagem

era clara: "Eu não vim para ser servido, mas para servir", e servir

até dar a vida.

Assim, a única verdadeira tentação, segundo o Evangelho, é a

do poder, no sentido do domínio sobre os outros, humilhando,

oprimindo, discriminando, obrigando à fome, à violência, à

guerra, à morte, com uma cultura imperialista e,

consequentemente, militarista...

Evidentemente, em qualquer sociedade o poder é necessário,

inevitável. Toda a questão consiste em saber como é que ele é

exercido e com que finalidade. Quantos se lembram que

Ministro, na sua etimologia, significa pura e simplesmente

servente, aquele que serve? Primeiro-Ministro é o que está à

frente no serviço. Jesus disse aos discípulos, portanto, também ao

papa, bispos, cardeais, padres: "Sabeis que os chefes das nações

governam-nas como seus senhores. Não seja assim entre vós;

pelo contrário, quem quiser fazer-se grande entre vós seja vosso

servo".

Jesus renunciou ao poder enquanto domínio, mas é referido

frequentemente no Evangelho que ensinava com autoridade. A

palavra autoridade vem do verbo latino augere, que significa

aumentar. Ter autoridade tem, portanto, a ver com fazer crescer,

aumentar no ser. Cá está: servir. O poder legitima-se enquanto

serviço de fazer crescer na liberdade, na justiça, na dignidade, no

bem comum...Presidentes, ministros, bispos, jornalistas, pais,

professores, padres, polícias... exercem legitimamente o poder

enquanto autoridade, quando ele faz crescer... Assim, não são

apenas os súbditos que devem obedecer. A palavra obediência

também tem a sua origem no latim: obaudire, que significa ouvir.

Então, os que têm poder legítimo, começando pelos pais, são os

primeiros a ter de obedecer, isto é, a ter de ouvir aqueles que

precisam que lhes seja feita justiça, ouvir a própria consciência,

ouvir o apelo de todos aqueles que clamam por mais liberdade e

dignidade...

Não há superiores e inferiores. Há apenas homens e mulheres

iguais em dignidade. E alguns estão constituídos em poder, que

devem exercer como serviço a essa dignidade inviolável… Aqui,

questão substancial é haver poder formal não acompanhado da

necessária autoridade, competência pessoal.

Quando se fala em Igreja, é difícil não se ser, por princípio,

imediatamente confrontado com uma situação de desconforto.

Este mal-estar não é pertença exclusiva de ateus ou agnósticos:

os próprios cristãos, mesmo cristãos católicos, podem ter uma má

relação com a Igreja. De facto, a Igreja aparece-lhes

frequentemente como uma hierarquia soberana e longínqua, que

comanda, que proíbe, não se percebendo muitas vezes se essas

ordens e proibições querem realmente o bem das pessoas ou, se,

pelo contrário, não são expressão disfarçada de interesses

económicos e políticos, enfim, do poder... Lá está o poder sacro

com os seus abusos: abusos de poder, de consciência, sexuais…

Num primeiro momento pelo menos, a Igreja surge como uma

hiperorganização, tendo à frente um monarca (o Papa), com os

seus ministros (cardeais da Cúria romana, a famosa “corte”, que

tantos dissabores causou a Francisco), e também altos

funcionários (núncios ou embaixadores do Vaticano, espalhados

pelas capitais dos Estados do mundo, e bispos) e ainda médios e

pequenos funcionários (monsenhores, cónegos, padres)...

Mas não devia ser assim. De facto, a palavra igreja em português

(iglesia em castelhano, église em francês) vem do grego

Ekklesía. Ora, a Ekklesía era a assembleia do povo reunido. No

alemão (Kirche), no inglês (Church), etc., a origem é outra:

Kyrike (forma popular bizantina), com o significado de

"pertencente ao Senhor" (Kyrios) e, por extensão, "casa ou

comunidade do Senhor". De qualquer modo, na dupla etimologia,

a Igreja, no Novo Testamento, significa a assembleia daqueles

que acreditam em Jesus, que crêem nele como o Messias e se

tornaram seus discípulos, querendo, portanto, segui-lo, fazendo

durante a vida o que ele fez e confiando nele na própria morte,

esperando também a plenitude da vida em Deus, a vida eterna. A

Igreja desde o início considerou-se a si mesma como a

assembleia dos fiéis a Cristo, dos que pertencem ao Senhor: o

sinal dessa pertença era o baptismo e reuniam-se, celebrando, na

Ceia, a sua memória, até que ele venha.

Evidentemente, sendo constituída por homens e mulheres, a

Igreja precisou de dar-se a si mesma o mínimo de organização.

Por isso, nela, há diferentes funções e serviços. A palavra

correcta é precisamente serviços. Significativamente, o Novo

Testamento não fala de hierarquia (poder sagrado), mas de

diakonia, que quer dizer ministério, serviço (mas, repito, também

os Ministros não esqueceram já que ministro é aquele que presta

um serviço?).

Que é que isto tudo quer dizer? A Igreja não é, na sua raiz,

uma hiperorganização, mas assembleia convocada por Deus e

reunida em Jesus, o Cristo. Então, o papa, antes de papa, é

cristão; o bispo, antes de ser bispo, é cristão, um seguidor de

Cristo; um cardeal, um cónego, um padre são discípulos de

Cristo, que têm uma missão de serviço. Que devem servir,

precisamente como qualquer cristão. Não há de um lado a

hierarquia que manda e do outro os cristãos leigos que

obedecem. Há sim a comunidade dos que acreditam em Jesus,

que procuram ser seus discípulos e que obedecem uns aos outros,

escutando-se uns aos outros, no Espírito Santo, e que prestam

serviços uns aos outros e a todos as pessoas, segundo os dons e

as tarefas que foram dados a cada um para bem de todos.

Neste sentido, não se acredita propriamente na Igreja; o que o

cristão faz é professar e praticar a fé em Jesus e no Deus de Jesus

em Igreja, a comunidade dos que acreditam.

Sábado, 28 de Fevereiro de 2026

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