quarta-feira, 2 de março de 2016

ESTA QUARESMA COMEÇOU BEM (2) Frei Bento Domingues, O.P.


1. Há 25 anos, a convite do Centro Bartolomé de Las Casas, de Cusco, participei num congresso internacional sobre modelos de Inculturação e Modernidade, realizado na cidade do México. Samuel Ruiz Garcia, bispo de San Cristobal de las Casas, estava hospedado no convento dominicano onde também eu tinha sido fraternalmente acolhido. Pude conversar longamente com esta figura do catolicismo mexicano que, na altura, já andava nas bocas do mundo, vigiado pelo Governo e pelo Vaticano. Contou-me que tinha sido um padre muito conservador. O contacto com a vida terrível e humilhada dos índios de Chiapas, a participação no Vaticano II e na conferência de Medellin (Colômbia), mostraram-lhe que o caminho do catolicismo era o da incarnação nas culturas nativas. Daí brotou a teologia indigenista que se prolongou na teologia da libertação.

Participei, então, com representações de várias dioceses, numa fervorosa romagem ao Santuário da Virgem de Guadalupe, presidida pelo referido bispo, de protesto contra a prisão de um padre responsável pela nova orientação pastoral indigenista[1].

Voltei a encontrar o bispo Samuel no meio do seu povo, onde se anunciava a guerra na qual ele desempenhou um papel de mediador, evitando um genocídio. Gostei de ver o Papa Francisco a rezar junto ao seu túmulo.

2. Na visita pastoral ao México, o Papa foi extremamente duro com os exploradores da população pobre, sobretudo com os narcotraficantes. Mas ao fazer o balanço da viagem com os jornalistas, foi enfático: Quero dizer uma coisa, uma coisa justa, sobre o povo mexicano. Tem uma cultura… milenária. Sabeis que hoje, no México, se falam 65 línguas, contando as indígenas? É um povo duma grande fé, também sofreu perseguições religiosas, existem mártires: irei canonizar dois ou três.

(…) O «povo» não é uma categoria lógica; é uma categoria mística. Como conseguiu este povo não falir, com tantas guerras? E as coisas que sucedem agora... Um povo que ainda tem esta vitalidade só se explica por Guadalupe.

No primeiro dia, o destaque foi para o encontro com o episcopado. Perante os graves problemas que este tem de enfrentar, o Papa lembrou que era preciso um olhar que reflectisse a ternura de Deus. Por isso, sede bispos de olhar límpido, alma transparente, rosto luminoso; não tenhais medo da transparência. A Igreja não precisa da obscuridade para trabalhar. Vigiai para que os vossos olhares não se cubram com as penumbras da névoa do mundanismo; não vos deixeis corromper pelo vulgar materialismo nem pelas ilusões sedutoras dos acordos feitos por baixo da mesa; não ponhais a vossa confiança nos «carros e cavalos» dos faraós de hoje, porque a nossa força é a «coluna de fogo» que irrompe separando em duas as águas do mar, sem fazer grande rumor[2].

O Papa observou que a hibridação irreversível da tecnologia aproxima o que está afastado, mas, infelizmente, torna distante o que deveria estar perto.

Por isso, nos vossos olhares, o povo mexicano tem o direito de encontrar os indícios de quem «viu o Senhor». Isto é o essencial. Assim, não percais tempo e energias nas coisas secundárias, nas críticas e intrigas, em projectos vãos de carreira, em planos vazios de hegemonia, nos clubes estéreis de interesses ou compadrios. Não vos deixeis paralisar pelas murmurações e maledicências. Introduzi os vossos sacerdotes nesta compreensão do ministério sagrado. A nós, ministros de Deus, basta a graça de «beber o cálice do Senhor», o dom de guardar a parte da sua herança que nos foi confiada, apesar de sermos administradores inexperientes. Deixemos o Pai atribuir-nos o lugar que preparou para nós[3]. Poderemos nós ocupar-nos verdadeiramente doutras coisas que não sejam as do Pai? Fora das «coisas do Pai[4]» perdemos a nossa identidade e, culpavelmente, tornamos vã a sua graça.

Se o nosso olhar não dá testemunho de ter visto Jesus, então as palavras que recordamos d’Ele não passam de figuras retóricas vazias. Talvez expressem a nostalgia daqueles que não podem esquecer o Senhor, mas, em todo o caso, são apenas o balbuciar de órfãos junto do sepulcro. No fim de contas, são palavras incapazes de impedir que o mundo fique abandonado e reduzido ao próprio poder desesperado.

3. Peço-vos que não subestimeis o desafio ético e anticívico que o narcotráfico representa para a juventude e para a sociedade mexicana inteira, incluindo a Igreja.

(…) Qual é a tentação que nos pode vir de ambientes dominados pela violência, a corrupção, o tráfico de drogas, o desprezo pela dignidade da pessoa, a indiferença perante o sofrimento e a precariedade? Qual é a tentação que repetidamente podemos ter nós, os chamados à vida consagrada, ao presbiterado, ao episcopado?

Acho que a poderemos resumir numa só palavra: resignação. À vista desta realidade, pode vencer-nos uma das armas preferidas do demónio: a resignação que nos entrincheira nas nossas «sacristias» e seguranças aparentes e nos trava na hora de arriscar e transformar.

Pai Nosso, não nos deixeis cair em tentação.

Esta Quaresma ainda não terminou.

28.02.2016







[1] Cf. Frei Bento Domingues, O.P. A Igreja e a Liberdade, Mário Figueirinhas, Porto,1997, 120-123
[2] Mt 20, 20-28
[3] Lc 2, 48-49

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Papa pede que políticos corruptos se arrependam

"...Partindo de um episódio bíblico em que o rei Acab manda assassinar Nabot para lhe roubar uma vinha, Francisco disse que “Deus vê este crime e bate à porta do coração de Acab; o rei, confrontado com o seu pecado, entende, humilha-se e pede perdão: que bom seria que os poderosos exploradores de hoje fizessem o mesmo”.

“E essa não é uma história de outros tempos. É uma história atual, dos poderosos que, para ter mais dinheiro, exploram os pobres, exploram as pessoas. É a história do tráfico de pessoas, do trabalho escravo, das pessoas que trabalham na informalidade, com o mínimo, para enriquecer os poderosos. É a história dos políticos corruptos, que querem sempre mais e mais”, afirmou o Santo Padre.
..."
BI Comboniano

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

ESTA QUARESMA COMEÇOU BEM (1) Frei Bento Domingues O.P.


1. As Igrejas Católica Romana e Católica Ortodoxa, em 1054, consumaram, de forma solene, o seu progressivo divórcio: excomungaram-se reciprocamente. Dizia-me um amigo, pouco entendido em questões de religião: isso de excomunhões deve ser com como lançar um feitiço para o quintal do vizinho. Só funciona se os dois acreditarem nisso.

De facto, quase durante um milénio, foi mantida essa sacralizada ficção. As duas partes faziam de conta que Deus dependia das suas quezílias teológicas e culinárias. Teológicas, porque se imaginavam a viajar pelo interior da Santíssima Trindade e a observar o percurso seguido pela fonte do Espírito Santo. Culinárias, porque não se entendiam acerca do uso do pão, fermentado ou não fermentado, na celebração da Eucaristia, nem reconheciam a cada uma das igrejas a liberdade de seguir a receita da sua preferência. 

A falta de humor teológico e litúrgico acaba sempre por sacralizar o ridículo. Certas instituições e pessoas que pretendem manter intacto o depósito da fé e as invioláveis tradições litúrgicas esquecem que não há imagem nenhuma nem nenhum conceito que possam corresponder a Deus. A idolatria confunde a imagem com a realidade. Todas as artes, a começar pela música e pela poesia, são aspirações à plenitude, mas sabem que não são a plenitude, são apenas pontes para o invisível e inaudível. Confessam, no mais sublime que conseguem, o que lhes falta. Como dizia Messiaen, ficam na zona da imperfeição.

A linguagem litúrgica é simbólica, é a poética da fé, mas não é divina. A teologia que esquece que só conhece a Deus como desconhecido resvala para a arrogância pastoral e incapacita-se para reconhecer que lhe falta o essencial: o Outro.

Com o Vaticano II, a Igreja redescobriu que não existe ecumenismo, diálogo inter-religioso e diálogo com o mundo, na sua diversidade, sem o acolhimento do que não pode dominar: Deus e os outros.

2. O abraço de Paulo VI e do Patriarca Atenágoras[1] foi o reconhecimento público de que as Igrejas Católicas Romana e Ortodoxa vivem mal uma sem a outra. As excomunhões, que serviam apenas para camuflar orgulho e vontade de poder, foram anuladas. Só agora[2], no entanto, o Papa Francisco e o Patriarca Kirill saltaram, a pés juntos, um abismo milenar de suspeitas e acusações. Razão tinha Bergoglio quando disse, a propósito de um encontro entre católicos e protestantes: se deixarmos nas mãos de teólogos obtusos o processo ecuménico, teremos de esperar pela eternidade para ver a unidade entre as igrejas cristãs.

Importa destacar que este encontro não foi apenas para que os dois bispos se falassem de viva voz, coração a coração. Foi para que as duas Igrejas se tornassem, em simultâneo, Igrejas de saída para as periferias do Mundo.

A histórica declaração conjunta não precisa de ser explicada. Não é um texto esotérico. Precisa de ser conhecida. Estes irmãos na fé cristã analisaram as relações mútuas entre as duas Igrejas, os problemas essenciais dos seus fiéis e as perspectivas de progresso da civilização humana.

Porque terão realizado este encontro em Cuba? Porque é a encruzilhada entre Norte e Sul, entre Leste e Oeste. Foi a partir desta ilha, símbolo das esperanças do “Novo Mundo” e dos acontecimentos dramáticos da história do século XX, que dirigiram a sua palavra a todos os povos da América Latina e dos outros continentes.

Destacaram o crescente dinamismo da fé cristã, o forte potencial religioso da América Latina, a sua tradição cristã secular, presente na experiência pessoal de milhões de pessoas, como garantia de um grande futuro para esta região.

Em Cuba, longe das antigas disputas do “Velho Mundo”, sentiram-se mais fortemente a necessidade de um trabalho comum entre católicos e ortodoxos, chamados a dar ao mundo, com mansidão e respeito, a razão da esperança que está em nós[3].

Partilharam a Tradição espiritual comum do primeiro milénio do cristianismo, cujas testemunhas são a Virgem Maria, Santíssima Mãe de Deus e os Santos que veneramos. Entre eles, contam-se inúmeros mártires que testemunharam a sua fidelidade a Cristo e se tornaram semente de cristãos.

Deixaram transparecer o espanto e uma interrogação: como é possível, com uma Tradição comum dos primeiros dez séculos da Igreja, católicos e ortodoxos estarem privados da comunhão na Eucaristia, há quase mil anos?

3. Estamos divididos por feridas causadas por conflitos de um passado distante ou recente, por divergências – herdadas dos nossos antepassados – na compreensão e explicitação da nossa fé em Deus, uno em três Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Deploramos a perda da unidade, consequência da fraqueza humana e do pecado, ocorrida apesar da Oração de Cristo: Para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti; para que assim eles estejam em Nós[4].

As Igrejas só podem ser fiéis ao projecto de Jesus se procurarem a sua união como serviço da união de todos os seres humanos: para congregar na unidade todos os filhos de Deus dispersos[5].

A Quaresma ainda não terminou.







21 de Fevereiro de 2016



[1] Jerusalém, 6.01.1964
[2] Cuba, 12 de Fevereiro 2016
[3] 1 Ped 3, 15
[4] Jo 17, 21
[5] Jo 11, 52

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

ECOS DA GUINÉ- Foi em BUBA : Fomos a BUBA - UASP

Deixámos as belezas do Saltinho e, entassados na mesma lata, penetrámos em reino proibido (há 40 anos, claro) para satisfazermos uma das dimensões humanitárias e religiosas da nossa expedição. Só lembro Quebo, que dava pelo nome de “Aldeia Formosa”. Mesmo à beirinha da estrada, ainda se vêem os postes do arame farpado do quartel e as fortes paredes que não permitiam nem sequer perscrutar o que lá dentro se passava. Intacto ainda? Não sei. Mas a aparência não era de derrocada e não sei que instituição, se militar, se política, habita aquele espaço. (Continua)


PARA VER O ARTIGO NA INTEGRA CLIQUE AQUI

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

ECOS DA GUINÉ: Vamos ao Saltinho - UASP

Encaixotados como convém, descemos à bolanha, passámos a ponte (outrora umas tábuas a ranger em cima duns troncos de palmeira), hoje mais civilizada, de ferro…

Oi! Ali à esquerda a picada para Galomaro! outro Batalhão, sempre em tensão absoluta, mais por culpa do ambiente entre chefias do que por culpa da guerra… (ó médico – Rui Coelho, é? Lembras a revolta que te ia no coração? Nunca esqueci aquela latinha de ovas que me deste em partilha com umas cervejolas… fomos surpreendidos pelo comandante… lembras?).

E lá fomos rumo a Bambadinca. Ao cimo, o alto do quartel… zona animada à beira da estrada com mercado permanente, Muito se vende, pouco se compra, mas há movimento… estrada nova para o Saltinho, já nem se vislumbrou Mansambo. O trilho é outro. Que recordações! (Continua)
PARA LER O ARTIGO NA INTEGRA, CLIQUE  AQUI



quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Papa vai em busca da riqueza da fé no povo mexicano 04 de Fevereiro de 2016

Em mensagem dirigida ao povo mexicano, o Papa afirma que vai em busca da riqueza da fé:

“Não vou ao México como um Rei Mago, carregado de coisas para levar”, vou sim “como um peregrino”… Vou buscar a riqueza de fé que vocês têm, vou para deixar-me contagiar pela riqueza desta fé”.

“Eu vou para vos servir, para ser um servidor de vossa fé…

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Novo bispo comboniano 01 de Fevereiro de 2016

O Papa Francisco nomeou o comboniano espanhol Padre Miguel Ángel Ayuso Guixot bispo titular de Luperciana (Tunísia) na sexta-feira, 29 de janeiro, anunciou o Vaticano.

Dom Miguel Ángel nasceu em Sevilha e tem 63 anos. Foi ordenado padre em 1980 e fez serviço missionário no Egito e no Sudão até 2002.

Fala espanhol, árabe, inglês, francês e italiano.

A nomeação de Dom Miguel Ángel elevar para 21 o total de bispos combonianos: 12 italianos, quatro espanhóis e um do Sudão, Sudão do Sul, Eritreia, Brasil e México, respetivamente. Têm dioceses na África (10), América Latina (4) e Médio Oriente (1). Um trabalha no Vaticano e cinco estão jubilados.