domingo, 12 de abril de 2020

A MORTE NÃO PODE SER A ÚLTIMA PALAVRA Frei Bento Domingues, O.P.


1. Não há liturgia cristã que suspenda as leituras do Antigo e do Novo Testamentos, por vezes acompanhadas pela grande música e integradas numa celebração ritual. Na Semana Santa são, por regra, muito mais abundantes. Exigem o auxílio de uma boa cultura bíblica, bastante ausente da maioria das assembleias. Não se deve confundir uma celebração litúrgica com uma imaginária reconstituição do passado, do mundo que já não existe. É certo que algumas homilias tentam situá-las no presente mediante considerações e aplicações, muitas vezes de pendor pietista e moralizante que amortecem a imaginação em vez de a incendiar. Existem e sempre existiram belas excepções.

  O mundo desses textos, a história turbulenta e dilacerada da Cristandade em que foram acolhidos, pensados, celebrados, traídos e retomados como fonte de luz, não fazem do Cristianismo uma religião do Livro como acontece, por exemplo, com o Islão.

Não pode haver culto da Sagrada Escritura. Sagrado é Aquele de quem elas testemunham, Aquele que se fez “carne”, isto é, fragilidade humana. O Verbo de Deus não se fez Livro.

  Tudo quanto se escreveu no âmbito da fé cristã, bebido em muitas fontes culturais, não foi para encher bibliotecas de erudição ou para alimentar escolas esotéricas. Foi para mostrar algo de absolutamente extraordinário que nenhum livro pode conter, mas apontar e testemunhar por uma vida feita dom. Jesus Cristo não é apenas nosso contemporâneo. É a interrogação mais radical à nossa contemporaneidade, interrogação que se procurou e procura abafar dentro e fora das Igrejas.

 Como não sei usar o seu estilo criativo das parábolas, vou supor e imaginar, de forma tosca, algumas interrogações como esta: porque continuais a fazer do dinheiro, de tudo o que ele representa, o vosso deus? Ainda não reparaste que o actual modelo de sociedade e de globalização não vos pode salvar? Trabalhais admiravelmente no desenvolvimento das ciências e das tecnologias com resultados espantosos, mas para quê? Que mundo procurais e que elas podem ajudar a construir? Não vos dais conta que se continuardes a ceder às tentações da dominação económica, política e religiosa, a nível local e global, não estais a construir sociedades abertas, democráticas, mas a fortalecer e a fechar as pessoas no egoísmo, o grande vírus do presente e do futuro?

     Não vale a pena repetir que o ser humano não tem conserto. Estamos sempre a tempo, em qualquer idade, de nascer de novo. Como esta crise monstruosa está a revelar, existem incontáveis pessoas que ganham nova vida gastando-se a dar consolo e esperança. São muitas as que acordam com a pergunta: em que posso ajudar pelo desenvolvimento dos meus talentos, das minhas capacidades? Sempre conheci santos e santas que orientavam e orientam o seu percurso humano pela máxima antiga e sempre nova: o bem é para fazer e o mal, para evitar. O resto pode transformar-se em conversa pretensiosa, farisaica, para evitar nascer de novo. 

Seja como for, a presença misteriosa, divina, em todo o ser humano, não substitui a sua criatividade nem atenta contra a sua autonomia e liberdade.

       2. Segundo os Actos dos Apóstolos, o próprio S. Paulo, para introduzir a sua fé na ressurreição de Cristo, recorre à literatura gentia que, tacteando, confessava que Deus não está longe de nós, pois Nele vivemos, nos movemos e existimos. Somos da sua raça[1].

       O Domingo é dedicado à celebração semanal da Páscoa para reconhecer, na partilha do pão, a presença transformante de Cristo no quotidiano de toda a semana. Está na origem da grande celebração anual.

        Odo Casel (1886-1949) [2], monge beneditino, fez um grande esforço   para mostrar que a liturgia é a presença actual do mistério pascal. Reencontrou-se com a autêntica cristologia de Tomás de Aquino que defendia que a actividade histórica de Jesus não ficou no passado, mas atinge presencialmente todos os tempos e lugares, por ser obra de Deus na intervenção humana de Cristo[3]. Esta presença actuante é acolhida quando hoje o nosso agir se identifica com o sentido do itinerário histórico de Cristo que passou fazendo o bem[4].

Jesus não escreveu nada. Não pediu aos seus discípulos que escrevessem a sua mensagem, mas que testemunhassem com a vida o seu Testemunho. O facto é que, passados alguns anos, surgiram muitos escritos sobre a pessoa de Jesus, sobre a sua actividade e sobre a sua mensagem. A Primeira Carta aos Tessalonicenses é considerada o escrito mais antigo, geralmente datado do ano 50. Mais tarde, surgiram os outros textos do Novo Testamento, no seio de comunidades que viviam ligadas pela fé a Jesus ressuscitado sem texto.

Com o tempo, às primeiras comunidades de discípulos, não bastou viver da fé em Jesus ressuscitado e das narrativas orais que partilhavam com aqueles que tinham andado com Jesus. Dessa situação, nasceram os 4 Evangelhos, em lugares diversos e de comunidades com problemáticas diferentes. Tinham fontes comuns e fontes próprias.

3. Estamos no Domingo de Páscoa. As narrativas pascais[5] deixam muitos fiéis perplexos. O Ressuscitado aparece, nuns casos na Galileia, noutros em Jerusalém e nos seus arredores. Na primeira versão do Evangelho de Marcos, o Ressuscitado não aparece a ninguém. Foi-lhe depois acrescentado um final que já integra o de outras narrativas. Há, no entanto, um traço comum: a ressurreição é inesperada, não se pode descrever, não é de ordem histórica, mas é real, porque o real não se limita ao que a história pode documentar. A linguagem das narrativas das aparições de Jesus é muito divertida pelos seus contrastes, pois está diante de uma grande dificuldade: como mostrar que é o mesmo antes e depois da ressurreição, mas não é nada da mesma maneira? Usa um artifício para mostrar a continuidade e a ruptura. Não vou entrar nessa apresentação que exigiria explicações que não cabem nas dimensões desta crónica.

Não acredito que a morte seja a última palavra da nossa vida.

No cemitério de Castro Daire, foi fixado um poema de Frei José Augusto Mourão (1947-2011) que é cantado em todos os funerais. No convento de S. Domingos, pertence à liturgia de Sexta-Feira Santa. Só a Páscoa de sempre celebra a sua memória:

Não pode a morte reter-me na cruz./Não pode o mundo arrancar-me à raiz/ Ao pé de Deus hei-de sempre viver/ Com Deus cheguei e com Ele vou partir// A tua vida me toma e transporta/ Teu sangue inunda meu corpo de paz/ Vejo as mãos do Senhor glorioso/ Nas minhas mãos a memória de Deus// A Ti, Senhor, meus desejos regressam/ Findo o andar, disponíveis as mãos/ Abre meu corpo ao devir que não sei/ Eu chamo a esperança pelo nome de Deus.



12. Abril. 2020



[1] Act 17, 28-29
[2] O Mistério do Culto Cristão, Secretariado Nacional de Liturgia, 2019
[3] S. T. 3, q. 58, a. 1
[4] Act 10, 38-39
[5] Mc 16; Mt 28; Lc 24; Jo 20-21

quinta-feira, 9 de abril de 2020

SANTA PÁSCOA - uasp


Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim! (Jo 12,32)

A UASP deseja à suas Associadas, antigos alunos dos Seminários, seus familiares e amigos, uma Santa Páscoa! 


www.uasp.pt | Faceboock.com/uasp


VOTOS DE SANTA PÁSCOA

Caros Colegas e Amigos
Mesmo que sem autorização do autor, vou fazer minha a Saudação Pascal do "gurú" da nossa Associação, o nosso muito querido colega e amigo Pe Manuel Augusto. Apesar de estar a viver no "olho do furacão", encontrou tempo e ânimo para nos confortar com a esperança na alegria da Ressurreição por que todos ansiamos nestes tempos conturbados que nos foi dado viver.


Para o Pe. Manuel Augusto e para todos vós os meus votos de uma Santa Páscoa em meu nome e em nome da AAA Combonianos

António Pinheiro




-------- Forwarded Message --------
Subject: Saudação Pascal
Date: Thu, 9 Apr 2020 09:28:33 +0200
From: Manuel Augusto Ferreira <malfmccj@gmail.com>
To: Antonio Pinheiro <aspinheiro@clix.pt>


Estimado António Joaquim!
Uma palavra, da minha parte, para te procurar e encontrar, apesar da quarentena que nos isola. É Páscoa de Cristo e, por tradição e por fé, procuramo-nos para trocar votos de felicidade e alegria.
Por um momento, quase cedia à dificuldade de o fazer, dadas as circunstâncias em que vivemos: como desejar feliz páscoa, quando estamos todos envoltos em sofrimento e incerteza, a viver um tempo, nunca imaginado, em que tudo fica suspenso e incerto? Como falar de Páscoa, quando somos forçados a vivê-la sem liturgia, sem flores e sem cânticos, sem abraços de alegria?
Mas, de seguida, pensei que, no nosso isolamento, todos nos desejamos mais, em comunhão espiritual; todos esperamos uma palavra de esperança, um gesto de amizade que nos recuperem para a alegria de viver.
Não que eu possa dizer essa palavra ou adiantar esse gesto... Mas nas palavras e gestos que nos trocamos, ajudamo-nos a abrir as nossas vidas a Quem a pode dizer, a Quem o pode fazer...
A Deus que a diz, a nós como disse a Cristo, no silêncio do seu sofrimento, na noite de sábado santo: “Tu és meu filho, hoje te exalto!” A Deus que, nos caminhos do nosso isolamento, nos espera sempre com um abraço de Amor que nos reconduz à Vida.
Sim, uma palavra que anuncie uma passagem (páscoa é passagem!) da incerteza à esperança, da tristeza à alegria, do sofrimento à vida em plenitude, do egoísmo ao amor.
Nas presentes circunstâncias experimentamos que a vida é frágil, sempre ameaçada; é dom recebido para partilhar. Somos criados por Amor, para dar Amor e fazer crescer a Vida; para tecer a nossa pequena história com o amor criador de Deus, nela fazendo entrar (com a paixão dos enamorados da Vida) a Beleza, a Bondade e o Bem, que são nomes de Deus (também).
Haja Páscoa! Como foi para Cristo, assim seja para ti e para os teus, para nós, para toda a humanidade nesta hora de fragilidade.
Com amizade,
P. Manuel Augusto

Manuel Augusto Lopes Ferreira
Missionari Comboniani
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segunda-feira, 6 de abril de 2020

TECER REDES DE ESPERANÇA Frei Bento Domingues, O.P


1. Li comovido e meditei a homilia do Papa Francisco, do dia 27 de Março, na Praça vazia de S. Pedro, cheia do mundo inteiro. Dou graças a Deus pela presença activa desta voz que congrega as energias de todas as pessoas que tecem redes de esperança, neste tempo ferido de guerras, fomes, exclusões e agora pelo devastador covid-19.

Essa voz de um corpo fragilizado reúne, no mesmo cuidado, os povos do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, crentes e não crentes, a começar pelos mais pobres, doentes e desprotegidos, acompanhados pelas pessoas que arriscam a própria vida para não deixarem esse vasto mundo sem protecção e consolo.

 São estas pessoas que estão a incarnar, de forma heróica, nestes meses de Março e Abril – e não sabemos por quanto tempo ainda serão indispensáveis – a ética samaritana a que me referi nesta coluna[1].

Esta pandemia está a precisar de muitas redes de cirineus que ajudem a levar a cruz das suas inumeráveis vítimas, agora e no futuro. Também elas precisam da manifestação da solidariedade agradecida de todos os cidadãos de alma magnânima.

Hoje, é Domingo sem Ramos das muitas comunidades cristãs de todos os continentes. Pode-se falar de Semana Santa por causa do infinito perdão pedido por Jesus Cristo, do alto da cruz, para todos os que colaboraram no seu assassinato legalizado com apoio popular. É uma celebração que nasce das narrativas do Novo Testamento, acerca das quais dispomos de excelente produção de crítica histórica, exegética, teológica e litúrgica, bastante ignorada[2].

 Como escreveu Frederico Lourenço, na sua introdução aos Evangelhos, é provável que estes quatro textos nem merecessem, ao leitor culto da época, o alto estatuto de literatura. No entanto, estes textos conquistaram o mundo antigo, tanto grego como romano.

Lendo-os dois mil anos depois, acrescenta, não é difícil perceber porquê. Sobre um desses textos já se escreveu que se trata do «mais divino de todos os livros divinos»: na verdade, essa descrição assenta a qualquer um deles. São textos que – com a sua mensagem sublime veiculada por palavras cuja beleza desarmante ainda deixa arrepiado quem os leu e releu ao longo da sua vida inteira – estão simplesmente numa categoria à parte.

    São textos insubstituíveis, confessa o tradutor de tantas obras-primas da nossa Antiguidade, porque a verdade é esta: tanto crentes como não crentes andaremos às voltas com Jesus nas nossas cabeças, enquanto houver seres humanos sobre a Terra[3].

2. Neste Domingo, é proclamada a Paixão de Jesus Cristo segundo S. Mateus. Quem se deixar iluminar pela música que ela provocou, em J.S. Bach, talvez possa descobrir o que nenhuma teologia pode conseguir.

Sob acção dessa luz, Eduardo Lourenço escreveu um texto, sem data, que é preciso ler e reler e do qual não resisto a deixar aqui alguns recortes: «no abismo intemporal onde a música me mergulhou, sumiu-se a luz monótona da lâmpada, a nitidez da hora nocturna, o meu próprio peso terrestre e mortal. “O céu não será o céu se lá não se tocar João Sebastião”.

«(…) A mim próprio, o dialecta incurável da conciliação dos contrários, o sofista triste da esperança terreste pregada aos outros, a magia humana de João Sebastião Bach arranca-me por momentos da árida e solitária planície da Insignificação, de que sou caminheiro sem tréguas. As lágrimas correm sem vergonha na minha face de homem rendido e humilde e o canto imortal rasga a minha carne até lá onde eu gosto de imaginar que está o mais profundo que me sustenta com o grito inexpiável do chamamento à única presença que desde a infância eu sei que importa à minha vida.

«(…) Entre tantas formas de tentação, e só aqueles que nada têm a perder não sabem o que é a tentação, a tentação de Deus é a mais perigosa, a mais irresistível, porque Deus é a forma que em absoluto convém à nossa alma»[4].

3. Numa das anáforas mais usadas na liturgia Eucarística, a evocação da Última Ceia é introduzida por uma expressão arrepiante: Na hora em que Ele Se entregava, para voluntariamente sofrer a morte, tomou o pão... Quem compôs esta anáfora e os que a usam não se dão conta do seu horror?

Os romanos usavam os três tipos mais cruéis de executar os condenados: agonizar na cruz, ser devorado pelas feras e ser queimado vivo.

A crucifixão não era uma simples execução, mas uma lenta tortura. Ao crucificado não se danificava nenhum órgão vital. Por isso, a sua agonia podia prolongar-se durante longas horas e até dias. Cícero chamou-lhe o suplício mais cruel e terrível.

Era normal combinar o castigo básico da crucifixão com humilhações e tormentos. Os dados são arrepiantes. Não era invulgar mutilarem o crucificado, vazarem-lhe os olhos, queimarem-no, flagelarem-no e torturarem-no de diversas formas, antes de o suspenderem da cruz. O modo de levar a cabo a crucifixão ficava entregue ao sadismo dos verdugos. Morto era pasto dos abutres[5].

Dizer que Jesus se entregou voluntariamente a este tipo de crueldade é blasfemar. Quando S. João põe na boca de Cristo, «ninguém me tira a vida, sou eu que a dou» refere-se a uma realidade completamente diferente[6].

 Jesus não foi obrigado a seguir a missão libertadora que empreendeu adulto, livremente, como graça do Espírito Santo. Foi escolha sua e, quando o prenderam, não renegou o caminho que escolhera, de alma e coração: dar vida e esperança às vítimas da injustiça e de todas as formas de opressão.

Nunca desejou a morte. Lutou contra ela e chorou a morte de um grande amigo. Não traiu. Nenhuma ameaça, nenhuma tortura o levou a trair, nem mesmo a da morte, o seu projecto libertador[7].

Jesus não encarou a morte como Sócrates: Sócrates mandou oferecer um galo ao deus da medicina, Asclépio, porque finalmente o envenenamento libertava-o da prisão do corpo. Jesus Cristo sentiu todo o horror da morte a ponto de perguntar por Deus: meu Deus, Meu Deus porque me abandonaste? No entanto, não encarou a morte como um niilista: nas tuas mãos entrego o meu espírito.

A morte não podia ser a última palavra porque, na sua morte, Jesus deu futuro àqueles que o matavam.



05. Abril. 2020



[1] Público, 22. 03. 2020
[2] Em José Antonio Pagola, Jesus. Uma abordagem histórica, Gráfica de Coimbra 2, 2008 e Michel Quesnel, Jesus. O Homem e o Filho de Deus, Gradiva, 2005, podem encontrar a bibliografia de referência.
[3] Frederico Lourenço, Bíblia. Novo Testamento. Os Quatro Evangelhos, Vol. I, Quetzal, 2016
[4] Eduardo Lourenço, Tempo da Música. Música do Tempo, Gradiva, 2017, 50-51; 124; 147; 157
[5] José Antonio Pagola, Op. cit., 387-426
[6] Jo 10, 16-18
[7] Lc 4, 16-30

segunda-feira, 30 de março de 2020

NASCER DE NOVO Frei Bento Domingues, O.P.


1. Se, como foi noticiado, o cardeal Burke tiver dito, perante as ameaças do covid-19, «que devemos poder orar nas nossa igrejas e capelas, receber os sacramentos e participar em actos de oração pública», espero que alguém o convença a despir-se das pompas cardinalícias, a envolver-se em saco e cinza para pedir perdão, através dos meios de comunicação social, a crentes e não crentes por essa pouca vergonha[1].

 Passemos ao título desta crónica. É a proposta mais séria para não alimentar ilusões para depois do presente pesadelo colectivo. Antes, porém, importa lembrar algumas evidências esquecidas para nos situarmos, com lucidez, neste tempo de agendas suspensas ou alteradas.

O ser humano surgiu na terra como um dos menos equipados e mais desarmados do reino animal. Os seus instintos são rudimentares e parcas as suas defesas.

 Essa situação escondia um tesouro único no seu corpo revelado pela palavra que o singulariza. É o tesouro da inteligência emocional, da razão discursiva, do afecto desinteressado, da liberdade criadora e destruidora, da imaginação, a louca da casa para o bem e para o mal.

 São recursos inesgotáveis. A partir de elementos preexistentes, possibilitam o gosto de estabelecer conexões mentais surpreendentes, de inventar, de inovar, de criar e recriar. Como escreveu Einstein, a criatividade é a inteligência a divertir-se[2].

Desde a revolução paleolítica até à chamada quarta revolução industrial, muito se andou na marcha multimilenária da humanidade. Continuamos a caminho, sem que saibamos bem para onde. Este percurso está semeado de realizações admiráveis e de criminosas destruições.

     Não podemos prever o futuro. Confia-se demasiado no poder da tecnologia, mas ela não é determinista. Pode levar-nos ao melhor e ao pior. Como escreve Y. N. Harari, «a ascensão da Inteligência Artificial e da biotecnologia irá certamente mudar o mundo, o que não significa que haja apenas um único desfecho possível»[3].

  Somos natura e multifacetada cultura científica, técnica, estética, metafísica e ética. A razão instrumental responde ilimitadamente, com eficácia surpreendente, a perguntas limitadas que ocultam as incómodas.  

Existem perguntas que nunca têm resposta adequada, mas que ajudam a manter o espírito em alerta, perante o irredutível mistério de que somos feitos. Brotam talvez das fontes da grande música, da literatura, da filosofia, da religião, da mística, da criatividade inesperada de novas linguagens. Manifestam-se em obras que nos emocionam, provocam e alimentam uma abertura sem fim: o sentimento de infinito, o pressentimento de Deus.

2. Depois, um miserável vírus semeia o pânico global e regressa a estafada questão do mal, da responsabilidade de Deus, dos seus castigos ou da sua não existência[4]. Prefiro, no seu aparento exagero, o que Dostoiewski escreveu em Os irmãos Karamazov: «todos somos culpados de tudo, culpados por todos, diante de todos e eu mais do que os outros».

Talvez seja útil escutar a voz de S. Tomás de Aquino, voz de um outro tempo, em que o mundo voltava a estar em efervescência. Tinha uma ideia muito optimista quanto ao progresso do conhecimento, mas reticente quanto ao progresso humano no seu conjunto. Dizia que na natureza, na maior parte dos casos, tudo corre bem. Com os seres humanos, na maior parte dos casos, acontece precisamente o contrário. Porquê? Porque estes não orientam a sua vida segundo as exigências da humanidade, a humanidade de todos, mas segundo a desagregação dos seus apetites[5].

Perante tantas catástrofes na natureza, isto pode parecer ingenuidade. Diz-nos, no entanto, que a harmonia da natureza do tempo de S. Tomás foi gravemente afectada. A questão mais actual é, precisamente, a desagregação dos apetites nas intervenções sobre a natureza que torna a nossa Casa Comum inabitável. Em vez de cuidar o nosso paraíso terrestre, destruímo-lo pela vontade de dominação e exploração económica, política e religiosa. É o ser humano que, ao desumanizar-se, corrompe a natureza. As dimensões da questão ética são globais.

Nietzsche suprime a questão ética, ao suprimir o ser humano: «o homem é algo que deve ser superado… que é o macaco para o homem? Uma coisa ridícula ou uma vergonha dolorosa. É isso o que deve ser o homem para o super-homem: uma coisa ridícula e uma vergonha dolorosa».

3. A Quaresma cristã não é nietzscheana. É mais modesta e mais radical. Procura vencer as tentações que acompanham a história da humanidade: o espírito diabólico de dominação que sonhou e criou impérios. Nenhum se aguentou. As novas tentativas estão possessas do mesmo espírito. Será possível enfrentá-lo?

No século XX e nos começos do século XXI, depois das catástrofes, os poderosos têm-se reunido muitas vezes e ainda não mostraram grande vontade de mudar de rumo. Reafirmam, sobretudo, as metamorfoses dos seus velhos apetites e desígnios. A espantosa construção da União Europeia está ameaçada porque não é o espírito de cooperação que a orienta, mas um regateio de perdas e de vantagens. Os cristãos tiveram um grande papel no sonho europeu. E agora?

O Evangelho de S. João conta uma história que intrigou uma destacada figura do Sinédrio da antiga Jerusalém, Nicodemos, e que não deixa margens a subterfúgios[6]. Foi, de noite, ter com Jesus e começou com muito boa retórica religiosa: Rabi, sabemos que vieste da parte de Deus como Mestre, pois ninguém pode realizar os sinais que tu realizas se Deus não estiver com ele. Jesus não cede a lisonjas: só quem nascer do alto pode ver o Reino de Deus. Nicodemos quer fugir a essa proposta radical: como pode um homem velho nascer de novo? Poderá ele entrar no ventre da sua mãe segunda vez e nascer?

Jesus convida-o a não mudar de conversa: aquele que nasce da carne é carne e aquele que nasce do espírito é espírito. Não te admires por eu ter dito que é preciso nascer do alto. O sopro sopra onde quer e ouves a sua voz, mas não sabes nem de onde vem nem para onde vai. Assim é aquele que nasceu do espírito.

Nicodemos não contradiz o Nazareno, mas procura não se enfrentar com a proposta de ter de nascer de novo, fazendo perguntas sobre o que já sabe. Jesus não aceita fugas ao confronto essencial.

Nicodemos é o nosso retrato.





29. Março. 2020



[1] Cf. 7Margens: 23. 03.2020. Bolsonaro e Tramp são bons acólitos do cardeal Burke.
[2] Cf. Alexandre Castro Caldas, Criatividade: a função cerebral improvável, UCP, 2017
[3] Yuval Noah Harari, Homo Deus. História Breve do Amanhã, Elsinore, 2017, 442-443
[4] Cf. Adolphe Gesché, O Mal, Rei dos Livros, 1996
[5] Suma Teológica, I, q. 91, a. 3 ad 2; q. 49, a. 3 ad 5
[6] Jo 3

domingo, 22 de março de 2020

ENCONTRO ANUAL DE VISEU - VISEU 2020 suspenso

Caros Colegas e Amigos

Tenho a comunicar-vos uma desagradável notícia. O evento mais aguardado do ano vai ter que ser cancelado e adiado sine die. Pelo andar da carruagem o melhor é começarmos a pensar no encontro de VISEU - 2021.

A gripe asiática de 1958 ( e as outras que entretanto lhe foram sucedendo) foi uma brincadeira ao pé desta CORONAPESTE. Lembram-se, os mais velhos claro, da enfermaria de Viseu superlotada? Do enf chefe, Pe Mário, na altura um estudante de teolodgia, creio eu? Da desinfecção das camaratas e outros espaços com fervura de folhas de eucalipto? etc, etc. O Pe. António Ino deve lembrar-se bem daqueles tempos! Só que naquela altura, alguns de nós, éramos "meninos e moços". Outros aguardavam a sua vez para crescer ou nascer...

Para além das decisões administrativas governamentais que temos de acatar, da atitude cívica que nos impõe a protecção dos outros e a nossa, os "superiores" combonianos resolveram também, e bem, suspender por tempo indeterminado encontros no seminário.

Nada de desânimos. O próximo encontro, seja ele quando for , será ainda mais participado e animado.

Um grande abraço para todos e...mantenham-se longe do CORONA.

A Direcção da AAA Combonianos

ÉTICA SAMARITANA Frei Bento Domingues, O.P.


1. Há quem se aventure a calcular as consequências previsíveis e imprevisíveis da guerra imposta pelo Covid-19 a curto, a médio e a longo prazo, em vidas humanas e na reinvenção de novos estilos de vida colectiva, a nível local e global. Não disponho nem dessa ciência nem desses poderes de adivinhação. Todos devemos ir aprendendo com quem sabe e a obedecer a quem legitimamente manda. Ninguém está dispensado de procurar aprender a descobrir novos modos de responder à pergunta fundamental da condição humana: em que posso e como posso ajudar?

 Na comunicação que o Primeiro-Ministro fez ao país, além das medidas que tomou, em consonância com todos os partidos, tocou no essencial: «O primeiro dever de cada uma e de cada um de nós é cuidar do próximo. É o de evitar que, por negligência, por desconhecimento, ponhamos em risco a saúde do outro. Cada um de nós julga estar numa situação saudável, mas a verdade é que nenhum de nós sabe se não é portador de um vírus que, involuntariamente, está a passar a outro».

Na situação presente, em muitos casos, a boa proximidade é a de encontrar modos e meios de proximidade sem o contacto físico. É um desafio à imaginação solidária que já teve e tem manifestações admiráveis. Os caprichos individuais, ou de grupo, que não têm em conta os avisos e as normas das autoridades legítimas são criminosos.

A religião bem entendida é aquela que sabe que o verdadeiro culto só se pode realizar em espírito e verdade. Como vimos na crónica do Domingo passado, não tem que estar sempre dependente de cerimónias litúrgicas. Segundo o Novo Testamento, o que há de mais sagrado para Deus é o ser humano.

No âmbito religioso, a imaginação não pode ficar paralisada pela restrição imposta às grandes manifestações. Foi Jesus que disse: quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo, já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, reza em segredo ao teu Pai, pois Ele, que vê o oculto, há-de recompensar-te. Nas vossas orações, não sejais como os gentios, que usam de vãs repetições, porque pensam que, por muito falarem, serão atendidos.  Não façais como eles, porque o vosso Pai celeste sabe do que necessitais antes do vosso pedido[1].

Quando S. Lucas conta uma parábola magnífica sobre a necessidade da insistência na oração, também não é para convencer a Deus, mas por causa da necessidade que nós temos de nos abrirmos ao seu desejo[2].

Hoje, os diferentes meios de comunicação proporcionam possibilidades várias de acesso às expressões da fé cristã. Se em condições normais, nada pode substituir a celebração comunitária da fé, esta também pressupõe outros modos de rezar.

2. Este período de quarentena – a quaresma inesperada – não pode servir para criar em nós uma religião intimista, uma mística de olhos fechados para as carências múltiplas das pessoas, sobretudo das mais sofredoras e isoladas. É bom não esquecer o aviso de S. Tiago: Se alguém se considera uma pessoa piedosa, mas não refreia a sua língua, enganando assim o seu coração, a sua religião é vã. A religião pura e sem mácula diante de Deus, nosso Pai, consiste nisto: assistir os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e evitar a corrupção. A seguir, o mesmo Tiago torna-se ainda mais incisivo: Falai e procedei como pessoas que hão-de ser julgadas segundo a lei da liberdade. Porque quem não pratica a misericórdia será julgado sem misericórdia. Mas a misericórdia não teme o julgamento. De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras da fé? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: Ide em paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome, mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta[3].

A modernidade é, antes de mais, a recusa de fazer intervir, nos nossos modos de compreensão da realidade e de acção, forças extra-humanas. Considera a religião alienante e de soluções ilusórias. É preciso alguma má vontade para chamar alienante ao citado texto de S. Tiago.

O filósofo agnóstico, J. Habermas, refere o último encontro com o filósofo ateu, H. Marcuse: ele estava na sala de cuidados intensivos num hospital de Frankfurt, rodeado de aparelhos dos dois lados da cama. Em conexão com a discussão de dois anos atrás, Marcuse disse-me: «Sabes? Agora sei em que é que se fundamentam os nossos juízos de valor mais elementares: na compaixão, no nosso sentimento pela dor dos outros»[4].

3. O título desta crónica é imposto por uma narrativa do Evangelho de S. Lucas[5]. Jesus enviou em missão 72 discípulos. Regressaram entusiasmadíssimos com o espectáculo sobrenatural de que se sentiram actores. Jesus testemunha que, do ponto de vista deles, foi um grande êxito, mas não tinham descoberto o principal. Proclamaram o Reino de Deus com sinais e prodígios sem se darem conta do que há de essencial neste anúncio: estamos inscritos no coração de Deus. Só falta inscrever o próximo no nosso coração.

Um doutor da Lei, para se fazer interessante, perguntou a Jesus: mas quem é o meu próximo? A resposta foi dada com uma parábola que deixa muito mal a religião do templo de Jerusalém e muito bem a atitude de um herético samaritano:

Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancada, o abandonaram, deixando-o meio morto. Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo. Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: trata bem dele e o que gastares a mais pagar-te-ei quando voltar. Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores? Ele respondeu: o que usou de misericórdia para com ele. Disse-lhe Jesus: Vai e faz tu também o mesmo.

Esta ética samaritana, sem qualquer invocação religiosa, obriga-nos a todos, ontem e hoje.



22. Março. 2020



[1] Mt 6, 5-8
[2] Lc 11, 1-13
[3] Tg 1, 26-27; 2, 12-17
[4] Anselmo Borges, Deus Religiões (In)Felicidade, Gradiva,  2016, 30-31
[5] Lc 10, 17-37