sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Nasceu um dia depois de mim...

Mas não há dúvidas de que sabe muito mais do que eu...

BISCATES por Carlos de Matos
​
Gomes

 Para que servem as primeiras páginas dos jornais e os
​
grandes casos dos noticiários das TV?
Se pensarmos no que as primeiras páginas e as aberturas dos
 
telejornais nos disseram enquanto decorriam as traficâncias
​
que iriam dar origem aos casos do BPN, do BPP, dos
​
submarinos, das PPP, dos SWAPs, da dívida, e agora do Espírito Santo, é fácil concluir que servem para nos
​
tourear.

Desde 2008 que as primeiras páginas dos Correios das
​
Manh
​ã
​
s, os telejornais das Moura Guedes, os comentários dos
​
Medinas Carreiras, dos Gomes
​
F
​
erreiras, dos Camilos
​
Lourenços, dos assessores do Presidente da República, dos assessores e boys dos gabinetes dos ministros, dos
​
jornalistas de investigação, nos andam a falar de tudo e
​
mais alguma coisa, excepto das grandes vigarices, aquelas que, de facto, colocam em causa o governo das nossas vidas,da nossa sociedade, os nossos empregos, os nossos salários, as nossas pensões, o futuro dos nossos filhos, dos nossos
​
netos.

Que me lembre falaram do caso Freeport, do caso do
​
exame de inglês de Sócrates, da casa da mãe do Sócrates,do tio do Sócrates, do primo do Sócrates que foi treinar
​
artes marciais para a China, enfim que o Sócrates se estava
​
a abotoar com umas massas que davam para passar um ano em
​
Paris, mas nem uma página sobre os Espirito Santo! É claro
​
que é importante saber se um primeiro ministro é merecedor
​
de confiança, mas também é, julgo, importante saber se os
​
Donos Disto Tudo o são. E, quanto a estes, nem uma palavra.
O máximo que sei é que alguns passam férias na Comporta a
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brincar aos pobrezinhos. Eu, que sei tudo do Freeport, não
​
sei nada da Rioforte! E esta minha informação, num caso, e
​
falta dela, noutro, não pode ser fruto do acaso. Os
​
directores de informação são responsáveis pela decisão
​
de saber uma e desconhecer outra.
Os jornais, os jornalistas, andaram a tourear o público que
​
compra jornais e que vê telejornais.
Em vez de directores de informação e jornalistas, temos
​
novilheiros,
​
b
​
andarilheiros, apoderados, moços de estoques, em vez de notícias temos chicuelinas.
Não tenho nenhuma confiança no espírito de auto critica
​
dos jornalistas que dirigem e condicionam o meu acesso à
​
informação: todos eles aparecerão com uma cara à José
​
Alberto de Carvalho, à Rodrigues dos Santos, à Guedes de
Carvalho, à Judite de Sousa (entre tantos outros) a dar as
​
mesmas notícias sobre os gravíssimos casos da sucata, dos
​
apelos ao consenso do venerando chefe de Estado, do
​
desempenho das exportações, dos engarrafamentos do IC 19, das notas a matemática, do roubo das máquinas multibanco,da vinda de um rebenta canelas uzebeque para o ataque do
​
Paiolense de Cima, dos enjoos de uma apresentadeira de TV,das tiradas filosóficas da Teresa Guilherme. Todos
continuarão a acenar-me com um pano diante dos olhos para
​
eu não ver o que se passa onde se decide tudo o que me diz
​
respeito.
Tenho a máxima confiança no profissionalismo dos
​
directores de informação, que eles continuarão a fazer o
​
que melhor sabem: tourear-nos. Abanar-nos diante dos olhos
​
uma falsa ameaça para nos fazerem investir contra ela enquanto alguém nos espeta umas farpas no cachaço e os
​
empresários arrecadam o dinheiro do respeitável público.
Não temos comunicação social: temos quadrilhas de
​
toureiros, uns a pé, outros a cavalo.
Uma primeira página de um jornal é, hoje em dia e após o 
 
silêncio sobre os Espirito Santo, um passe de peito.
Uma segunda página será uma sorte de bandarilhas.
Um editor é um embolador, um tipo que enfia umas peúgas de
​
couro nos cornos do touro para a marrada não doer.
Um director de informação é um “inteligente” que
​
dirige uma corrida.
Quando uma estação de televisão convida um Camilo
​
Lourenço, um Proença de Carvalho, um Gomes Ferreira, um
​
João Duque, um Judice, um Marcelo, um Miguel Sousa Tavares,um Angelo Correia, devia anunciá-los como um grupo de forcados: Os Amadores do Espirito Santo, por exemplo. Eles
​
pegam-nos sempre e imobilizam-nos. Caem-nos literalmente em
​
cima.
As primeiras páginas do Correio da Manhã podiam começar
​
por uma introdução diária: Para não falarmos de toiros
​
mansos, os nossos queridos espectadores, nem de toureios
​
manhosos, os nossos queridos comentadores, temos as
​
habituais notícias de José Sócrates, do memorando da
​
troika, da imperiosa necessidade de pagar as nossas
​
dividas.
Todos os programas de comentário político nas TV deviam
​
começar com a música de um passo doble. Ou com a
​
premonitória “Tourada” do Ary dos Santos, cantada pelo Fernando Tordo.
O silêncio que os “negócios “ da família "Dona
​
Disto Tudo" mereceu da comunicação social, tão
​
exigente noutros casos, é um
​
a
​
testado
 
de cumplicidade:
uns, os jornalistas venderam-se, outros queriam ser como os Espirito Santo. Em qualquer caso, as redacções dos jornais
​
e das TV estão cheias de Espiritos Santos.
Em termos
​
tauromáticos, na melhor das hipóteses não temos jornalistas, mas moços de estoques. Na pior, temos as
​
redacções cheias de vacas a que se chamam na gíria as
​
“chocas”.

O que o silêncio cúmplice, deliberadamente cúmplice, feito sobre o caso Espirito Santo, o que a técnica do
​
desvio de atenções, já usada por Goebels, o ministro da
​
propaganda de Hitler, revelam é que temos uma comunicação social avacalhada, que não merece nenhuma confiança.
Quando um jornal, uma TV deu uma notícia na primeira página sobre Sócrates( e falo dele porque a comunicação
​
social montou sobre ele um operação de barragem pelo fogo,que na altura justificou com o direito a sabermos o que se
​
passava com quem nos governava e se esqueceu de nos informar
​
sobre quem se governava) ficamos agora a saber que esteve a
fazer como o toureiro, a abanar-nos um trapo diante dos
 
olhos para nos enganar com ele e a esconder as suas
​
verdadeiras intenções: dar-nos uma estocada fatal!

Porque será que comentadores e seus patrões, tão lestos a
​
opinar sobre pensões de reforma, TSU, competitividade, despedimentos, aumentos de impostos, gente tão distinta
​
como Miguel Júdice, Proença de Carvalho, Angelo Correia, Soares dos Santos, Ulrich, Maria João Avilez e esposo  Vanzeller, não aparecem agora a dar a cara pelos amigos Espirito Santo?

Porque será que os jornais e as televisões não os chamam, agora que acabou o campeonato da bola?

Um grande Olé aos que estão agachados nas trincheiras, atrás dos burladeros!

 Carlos de Matos Gomes  
Nascido em 24/07/1946, em V. N. da Barquinha. Coronel do Exército (reforma).
Cumpriu três comissões na guerra colonial: em Angola, Moçambique e Guiné, nas tropas especiais «comandos».
 
 

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