domingo, 28 de dezembro de 2025

E vós quem dizeis que eu sou? - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 E vós quem dizeis que eu sou?

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia

Jesus é, como escreveu o filósofo Karl

Jaspers, uma das "figuras determinantes" ou

"decisivas" da História humana. Não há

dúvida nenhuma de que, sem ele, a História

do mundo não seria como é. A sua figura

continua enigmática e misteriosa, e, ao

longo destes dois mil anos, foram muitos os

que de um modo ou outro tentaram

responder à pergunta que o próprio Jesus

colocara em relação à sua pessoa: “Quem

dizem os homens que eu sou? E vós quem

dizeis que eu sou?” E as respostas são

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sempre teórico-práticas, pois, ao contrário,

por exemplo, de um filósofo, Jesus é

também um modelo para viver e para

morrer.

Mesmo correndo o risco, inevitável, de

simplificações apressadas, poder-se-ia dizer

que o que hoje está em confronto é uma

cristologia "a partir de cima", helenística,

que utiliza categorias gregas, como

"consubstancial ao Pai", "união hipostática",

"encarnação", e uma cristologia "a partir de

baixo", bíblica, que procura fazer o percurso

dos discípulos com o Jesus histórico,

tentando balbuciar o mistério da sua pessoa.

Jesus nunca se declarou a si mesmo

Deus. Pelo contrário, como se escreve no

Evangelho segundo São Marcos, a alguém

que o chamou "bom mestre" respondeu:

"Porque me chamas bom? Ninguém é bom

senão só Deus". A sua humanidade

manifestou-se no seu saber limitado, na sua

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fé em Deus, na consciência que tinha de si

— considerou que tinha uma missão

absoluta e de importância última e decisiva

para a humanidade, mas ao mesmo tempo

interrogou Deus até ao último momento da

sua vida — lá está aquela oração que, do

alto da Cruz, atravessa os séculos: “Meu

Deus, meu Deus, porque é que me

abandonaste”. Mas confiou: “Pai, nas tuas

mãos entrego o meu espírito”.

Foi depois da experiência pascal — Deus

ressuscitou Jesus de entre os mortos: na

morte, Jesus não encontrou o nada, mas a

plenitude da vida de Deus — que os

discípulos compreenderam e

testemunharam até ao martírio que ele é o

Cristo, o Messias. Reflectindo à luz da

ressurreição — mas a vida, a morte e a

ressurreição só se compreendem na

interdependência: Deus não podia deixar na

morte quem viveu e morreu como Jesus;

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por sua vez, se Deus o ressuscitou, ele é

verdadeiramente o Messias e o Salvador —,

recordaram o que na sua vida terrena, nas

suas palavras, nas suas acções, na sua

morte, exprimia uma relação de intimidade

única com Deus: declarou-se senhor do

sábado e acima de Moisés, ensinava com

autoridade, autodesignou-se como o Filho

do Homem e sobretudo relacionava-se com

Deus como Abbá (Pai querido), experiência

que traduziu numa entrega incondicional

de amor pela humanidade até à morte.

Através dele, as primeiras comunidades

cristãs fizeram a experiência de que "Deus é

amor", como se lê na Primeira Carta de São

João, e acreditaram nele como o Filho de

Deus — a expressão "o Deus" refere-se

sempre ao Pai. Na sua pessoa, mostrou-se

de modo definitivo e insuperável a relação

salvadora de Deus para com o mundo e

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qual deve ser a relação dos seres humanos

com Deus e entre si. Na vida e na morte.

Ainda hoje, quem acredita em Jesus Cristo é

porque se reconhece nele, encontrando o

sentido último para a existência e para a

História.

Aqui chegados, com a constatação de que

Jesus nunca se declarou a si mesmo Deus e

que o Novo Testamento quando se refere a

Deus pura e simplesmente (ho theós) se

refere a Deus Pai, é natural a pergunta pela

Santíssima Trindade. Servir-me-ei

concretamente do célebre teólogo Hans

Küng, na sua obra famosa: Credo. Das

Apostolische Glaubensbekenntnis-Zeitgenossen

erklärt (Credo. A confissão de fé dos

apóstolos explicada às pessoas de hoje).

Küng começa por perguntar: Porque é

que a Santíssima Trindade não é

mencionada no Símbolo dos Apóstolos?

Porque é que no Credo da fé em Deus Pai,

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no Filho e no Espírito Santo não se diz uma

palavra sobre o Deus trino e uno, a

Santíssima Trindade, que, para muitos

teólogos é considerado o “mistério central”

do cristianismo?” A doutrina clássica

trinitária de “uma natureza divina em três

pessoas” só apareceu nos finais do século IV

e a festa da Santíssima Trindade só foi

declarada obrigatória em 1334 pelo Papa

João XXII.

Sim, ninguém pode negar que no Novo

Testamento se fala do Pai, Filho e Espírito e

que a fórmula litúrgica do baptismo

segundo o Evangelho de São Mateus é:

Baptizai “no nome do Pai, do Filho e do

Espírito Santo” (Mt. 28, 19). A questão,

porém, é como estão relacionados entre si o

Pai, o Filho e o Espírito. Ora, no Novo

Testamento, não há um único passo onde se

diga que Pai, Filho e Espírito são “da

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mesma essência”, isto é, possuem uma só

natureza comum (physis, substância).

Assim, conclui, Küng, não admira que o

Símbolo dos Apóstolos não fale da

Santíssima Trindade. E a pergunta é: como

falar de Pai, Filho e Espírito, evitando todo

o perigo e até a acusação, concretamente

por parte dos muçulmanos, de os cristãos

professarem um triteísmo.

Fica aí o resumo em três teses do que, a

partir de uma perspectiva do Novo

Testamento e olhando para o mundo actual,

Hans Küng considera, e eu com ele, “o

núcleo bíblico da doutrina tradicional sobre

a Trindade:

— Crer em Deus, o Pai, é crer no Deus

uno, que criou o mundo e o ser

humano, que os mantém no ser e os

leva à consumação.

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— Crer no Espírito Santo é crer no

poder e na força actuantes de Deus

no ser humano e no mundo.

— Crer no Filho de Deus é crer na

revelação do Deus uno no homem

Jesus de Nazaré, que é assim

Palavra, Imagem e Filho de Deus.”

Sábado, 27 de Dezembro de 2025

Cuidar da fragilidade e do sonho de Deus - P. Manuel João Pereira Correia, mccj

 Cuidar da fragilidade e do sonho de Deus

Ano A – Advento – 4º Domingo

Mateus 1,18-24: “José, não temas receber Maria contigo”

O Evangelho do quarto domingo do Advento põe em destaque a figura de José. Enquanto São

Lucas apresenta o acontecimento da Encarnação a partir da Virgem Maria, São Mateus

concentra a sua atenção em São José, o pai legal de Jesus: aquele que lhe dá o nome e lhe

transmite a filiação davídica. Lucas fala do anúncio do anjo a Maria, enquanto Mateus fala do

anúncio a José. As duas perspetivas completam-se mutuamente. Assim, depois de Isaías e

João Batista, José é a terceira figura que nos guia para o mistério do Natal.

Acolher o imprevisto do projeto de Deus

O Evangelho de hoje começa com um fato desconcertante para José: Maria “achou-se grávida

por obra do Espírito Santo”. É fácil imaginar a perturbação do prometido esposo, que não

consegue explicar o que aconteceu. Interiormente atormentado, pergunta-se o que deve fazer.

Deus intervém para lhe dizer: “Não temas receber Maria, tua esposa”, porque “o menino que

nela foi gerado vem do Espírito Santo”.

A figura de José é uma das mais misteriosas do Evangelho. É o homem do silêncio: nos

Evangelhos não se registra nenhuma palavra sua. Nem mesmo de Maria se menciona alguma

palavra em Mateus e Marcos. Deve-se dizer, porém, que no relato de Mateus, José é o

verdadeiro protagonista durante a infância de Jesus. Enquanto o seu nome aparece oito vezes

em Mateus, o de Maria apenas quatro. Poder-se-ia dizer que José é o último dos patriarcas, da

linhagem de José do Egito, o sonhador. É o único definido como “justo” por Mateus. José é

um fiel observante da Lei de Deus. É ele quem conduz a transição entre o Antigo e o Novo

Testamento.

Habitualmente sublinhamos, com razão, a obediência de São José. Contudo, não se trata de

uma obediência passiva, mas empreendedora. De fato, quando o anjo lhe diz para voltar a

Israel, ele não retorna à Judeia, onde reinava o cruel Arquelau, filho de Herodes. Considera

oportuno ir para outro lugar, e o Céu confirma essa sua prudência. O jovem José surpreende

não tanto pela sua obediência, mas pela sua capacidade de ação e prontidão, de coragem e

iniciativa, de responsabilidade e ponderação... Nada de figura medrosa, tímida e acomodada

como tantas vezes é representado!

Neste tempo de Advento, José ensina-nos como esperar Deus quando Ele chega de modo

inesperado. Gostaria, no entanto, de destacar dois aspetos particulares que podem inspirar-nos

no nosso caminho rumo ao Natal.

Cuidar da fragilidade

José é chamado a “receber consigo” Maria, mãe e esposa, e o Menino. “Receber consigo” é a

vocação de José. De fato, no relato de Mateus encontramos seis vezes essa expressão.

Guardião da fragilidade, é o guardião do mistério.

Essa particularidade do papel de São José ilumina o que significa viver o Natal: “receber

connosco” a Mãe e o Menino, por meio da fé e do amor. Mãe e Menino são ameaçados, hoje

mais do que nunca, por novos “Herodes”. Deus é frágil e precisa ser protegido. Por isso

somos chamados a ser como José.

https://comboni2000.org 1

Não se trata, porém, apenas de vivê-lo espiritualmente. Olhemos ao nosso redor para ver as

fragilidades que existem ao nosso lado, na família ou na comunidade, mas não só. Muitas

vezes olhamo-las como um incômodo, ignoramo-las ou apenas as toleramos com dificuldade.

Elas são o elo mais delicado da nossa humanidade. Ao aceitá-las, acolhemos o mistério de

Deus, que se faz pequeno, necessitado e pobre. Essas fragilidades têm nome. Talvez o Senhor

esteja a pedir-nos que “recebamos connosco” as fraquezas e os limites de alguém em

particular. Neste tempo de Advento, que São José nos inspire a cuidar delas!

Cultivar o sonho de Deus

“Um anjo do Senhor apareceu-lhe em sonho.” São José é um sonhador. E recebeu em sonho o

plano de Deus, porque era um homem capaz de sonhar. É o guardião do sonho de Deus,

comentava o Papa Francisco a este respeito.

Nós perdemos a capacidade de sonhar. Consideramo-la infantil. É verdade que no Natal todos

nos tornamos um pouco crianças. Reunimo-nos em família para celebrar. Desejamos a paz

uns aos outros. Mas não nos iludimos. Sentimos até uma certa comiseração pelos

“sonhadores” incorrigíveis. Talvez também nós tenhamos sonhado, no passado, que as coisas

pudessem mudar, mas esses sonhos se dissiparam no nada e adaptámo-nos à realidade.

O Natal é o tempo em que se realiza a profecia de Joel: “Os vossos anciãos terão sonhos, os

vossos jovens terão visões” (3,1). Deus traz o seu sonho à terra. Jesus o encarna. Mesmo que

o sonho pareça terminar no fracasso da cruz, Ele não desiste. Graças ao Espírito, o Grande

Sonhador, os apóstolos, que estavam desiludidos após a morte de Jesus, tornaram-se também

eles sonhadores.

O Natal recorda-nos que hoje é a nós que Deus confia este sonho. Que São José nos alcance a

graça de despertar a nossa capacidade de sonhar!

Para refletir

“Deus espera com paciência que eu finalmente queira consentir em amá-lo. Deus espera como

um mendigo que permanece de pé, imóvel e silencioso, diante de alguém que talvez lhe dê um

pedaço de pão. O tempo é esta espera. O tempo é a espera de Deus que mendiga o nosso

amor. Os astros, as montanhas, o mar, tudo o que nos fala do tempo traz-nos a súplica de

Deus. A humildade na espera torna-nos semelhantes a Deus. Deus é unicamente o mendigo.

Por isso Ele está ali e espera em silêncio. Quem avança ou fala usa um pouco de força. O bem

que é somente bem não pode senão estar ali. Os mendigos que têm pudor são suas imagens”

(Simone Weil)

P. Manuel João Pereira Correia, mccj

UMA NOVA MARIOLOGIA - Frei Bento Domingues, O.P. 28 Dezembro 2025

 

UMA NOVA MARIOLOGIA

Frei Bento Domingues, O.P.

28 Dezembro 2025

 

1. Fomos surpreendidos com um debate expresso no documento do Dicastério para a Doutrina da Fé, Mater Populi fidelis.

Pensávamos que, depois do Vaticano II e de todos os esforços ecuménicos para vencer os obstáculos que se levantavam sobre a mariologia, ao longo da história da Igreja, estavam superados. No entanto, o documento Mater Populi fidelis viu-se na obrigação de travar um debate que me parece já sem sentido[i].

A minha proposta é o reencontro com a figura de Maria, mãe de Jesus, abordada sob o ponto de vista da mensagem do Novo Testamento (NT), que fala de teologia, Deus-connosco, não de biologia.

Nasciam, assim, as Cristologias Narrativas. A primeira, a de S. Marcos, começa por apresentar Jesus adulto a receber o baptismo de João. A partir daí, passou a pregar o Evangelho de Deus: O tempo está pronto e o Reino de Deus está próximo. Mudai de mentalidade e acreditai no Evangelho.

Marcos começa pelo fundamental. Mas a curiosidade não está satisfeita. Este Jesus nasceu adulto? Mateus e Lucas escreveram aquilo a que se chama, impropriamente e de modo diverso, os Evangelhos da Infância. Apresentam a alegria do nascimento de Jesus e de João Baptista. Aí, começam também as confusões.

Ao não se ter em conta que são admiráveis narrativas teológicas, desliza-se para uma biologia de conveniência que acaba por ocultar o essencial. Continua-se a discutir a forma como Jesus foi concebido e como nasceu. Não faltaram as declarações mais absurdas: Nossa Senhora, virgem antes, durante e depois do parto. Jesus passou por Maria como o sol pela vidraça.

Ao evitar a reflexão sobre os textos, sobre o seu tecido simbólico e sobre os seus jogos de linguagem, recorre-se a algo muito certo – a Deus nada é impossível –, mas resvala-se para concepções pseudo-milagrosas que deixam mal o Espírito Santo, Maria de Nazaré, Jesus e S. José. Perdeu-se a beleza e a verdade dessas espantosas narrativas. Quando se procede assim, pode-se perguntar: então porque é que não se ficou apenas com o Evangelho de S. Marcos?

Os textos do NT interpretam o sentido cristão do Antigo: Jesus Cristo realiza, corrige e supera as esperanças não só de Israel, mas de toda a humanidade. O movimento cristão é um movimento de saída universalista. Está na sua lógica derrubar os muros criados entre povos e religiões. Jesus Cristo é, na sua própria pessoa, a reconciliação. Como dirão os textos: Ele é a nossa paz[ii].

Estas declarações interpretam o sentido da prática histórica de Jesus de Nazaré. O que se nota nas narrativas da sua vida adulta não é fruto do acaso. É fruto de um desígnio de Deus. O seu agir espantoso não era uma sucessão de milagres. Era Deus no tecido de uma vida humana, igual a nós excepto na maldade. Nasce humano e foi crescendo em idade, sabedoria e graça, perante o espanto de Maria[iii]. O Emmanuel não é só Deus connosco, é um de nós.

Não nasce só de Israel e para Israel. Nasce de toda a humanidade e para toda a humanidade, como mostra a genealogia de Lucas: filho de Adão, filho de Deus[iv].

As narrativas do NT nasceram para continuar a prática de Jesus na vida das pessoas e das comunidades, como aconteceu há 2 mil anos. Às vezes caímos na tentação de pensar que basta uma nova linguagem da Fé para os dias de hoje. São indispensáveis narrativas que contem as histórias de vida do encontro do Evangelho da Alegria com as situações actuais da nossa humanidade. É isto que Edward Schillebeeckx chama correlação crítica. Se não exprimirem esse encontro real, só podem produzir reportagens de literatura barata.

2. Existe um desentendimento entre Jesus e a sua família que vai ao ponto de julgarem que Ele enlouqueceu[v]. No mesmo capítulo de S. Marcos, é dito que andava a formar família com quem não era da própria família. Segundo a narrativa, de repente, chegam a sua mãe e os seus irmãos que o mandam chamar.

Da multidão que estava sentada à sua volta, disseram-lhe: Estão lá fora a tua mãe e os teus irmãos que te procuram. Jesus respondeu: Quem é a minha mãe e os meus irmãos? Percorrendo com o olhar os que estavam sentados à sua volta, disse: A minha mãe e os meus irmãos são estes. Quem fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe[vi].

O Evangelho de S. João afirma algo espantoso: Nem mesmo os seus irmãos acreditavam nele e gozavam-no pelas suas excentricidades e o gosto de dar nas vistas[vii].

Este Evangelho começa com os milagres nas Bodas de Caná. Aquilo de que mais se fala é a mudança da água em vinho bom. No entanto, este sinal está situado num contexto que envolve todos os convidados. A mãe de Jesus é a primeira a ser nomeada. A seguir vem nomeado o próprio Jesus e, depois, surgem os discípulos. A mãe desempenha um papel admirável: como acudir a uma situação desagradável, num casamento em que falta o vinho? Naquela cultura, não celebravam um casamento com chá. Ela pressentia, no seu filho, capacidade de alterar a situação, mas parecia que ele não estava para aí virado. Pelo sim, pelo não, aconselha os serventes a fazer o que Jesus lhes dissesse. E aconteceu o milagre.

Qual foi o outro milagre? Jesus não é o menino de sua mãe e acontece uma alteração nos lugares dos que foram convidados (Maria, Jesus, discípulos). No final, surge Jesus em primeiro lugar, a sua mãe e, depois, os discípulos.

A partir daí, no Evangelho de João, a mãe de Jesus nunca mais é nomeada até ao momento que vê o seu filho crucificado. Ela tinha aprendido a seguir o caminho de Jesus. Junto da Cruz, já não é apenas uma discípula, mas alguém que pode cuidar dos discípulos: é na escola de Maria quem se aprende a ser discípulo de Jesus.

Aqui está a nova Mariologia: Maria de Nazaré, de mãe passou a ser discípula do seu filho. Do papel de Maria na família natural passa a ser mãe da nova família que Jesus inaugurou, como diria o Papa Francisco, mãe de todos os irmãos, Fratelii Tutti.

3. O importante não são as festas do Natal como simples festa comercial, mas a transformação da vida numa festa para todos. Como disse o Papa Francisco, A luz de Natal és tu quando, com uma vida de bondade, paciência, alegria e generosidade, consegues ser luz a iluminar o teu caminho e o caminho dos outros.

Bom Ano 2026!



[i] No caso de Maria, esta mediação realiza-se de forma maternal, tal como fez em Caná e como se confirmou na Cruz. Assim explicava o Papa Francisco: «Ela é Mãe. E este é o título que ela recebeu de Jesus, ali mesmo, no momento da Cruz (cf. Jo 19, 26-27). Os teus filhos, tu és mãe. [...] Recebeu o dom de ser sua Mãe e o dever de nos acompanhar como Mãe, de ser nossa Mãe», Mater Populi fidelis, 34

[ii] Ef 2, 14 ss

[iii] Lc 2, 41-52; S. Mateus apresenta a origem de Jesus Cristo, filho de David, filho de Abraão, ainda num clima nacionalista

[iv] Lc 3, 23-38; comparar com Mt 1, 1-17

[v] Mc 3, 20-21

[vi] Mc 3, 31-35

[vii] Jo 7, 1-5

 

 

 

 

domingo, 21 de dezembro de 2025

DIA DE NATAL - António Gedeão

 DIA DE NATAL

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?)
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente acotovela, se multiplica em gestos esfuziante,
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
E como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra – louvado seja o Senhor! – o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha em pijama.

Ah!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão, in 'Antologia Poética'



Natal: o nascimento de Jesus e a infinita dignidade do Homem - Anselmo Borges Padre e Professor de Filosofia

 A festa do Natal deveria ser infinitamente

mais do que o festival do comércio natalício

exasperado. Há pessoas que chegam à noite de

Natal cansadas e desfeitas, por causa dos

presentes. No último instante, ainda tiveram de

ir à última loja aberta, por causa de mais uma

compra. Há inclusivamente pessoas para as

quais o tormento das compras natalícias começa

logo no início do novo ano, pouco tempo depois

do Natal: o que é que vão dar como presente

àquele, àquela, no próximo Natal?!...

Realmente, a festa do Natal é infinitamente

mais, e deve sê-lo. Porque o Natal é a visita de

Deus aos seres humanos, homens, mulheres,

jovens, crianças, bebés. É Deus presente entre os

homens. E, ao contrário do que frequentemente

fazemos com os nossos presentes, que

pretendem ser uma manifestação de ostentação

de poder junto dos outros, Deus veio, sem

majestade, sem poder. Veio, humilde, na

simplicidade. De tal maneira que os mais pobres

entre os pobres — os pastores — se não sentiram

humilhados ao visitá-lo. Foram os pastores os

primeiros que viram Deus visível num rosto de

criança. Quem é que imaginaria que Deus, se

algum dia viesse, viria assim: simples, pobre,

precisamente para que ninguém se sentisse

excluído?...

Quer se seja cristão ou não, quer se acredite

quer não, é necessário reconhecer que foi através

do cristianismo, isto é, mediante a fé no Deus

revelado em Jesus, que veio ao mundo a tomada

de consciência explícita e clara da dignidade

infinita de ser ser humano. Isso foi reconhecido

por pensadores da estatura de Hegel, Ernst

Bloch, Jürgen Habermas... Hegel afirmou

expressamente que na religião cristã está o

princípio de que "o homem tem valor

absolutamente infinito". Ernst Bloch, embora

ateu, confessou que foi pelo cristianismo que

veio ao mundo a consciência do valor infinito de

ser homem, de tal modo que nenhum ser

humano pode ser tratado como "gado". E Jürgen

Habermas, mais recentemente, escreveu que a

democracia se não entende sem a compreensão

judaico-cristã da igualdade radical de todos os

homens, por causa da "igualdade de cada

indivíduo perante Deus". A própria ideia de

pessoa enquanto dignidade inviolável e sujeito

de direitos inalienáveis veio ao mundo através

dos debates à volta da tentativa de compreender

a pessoa de Cristo e o mistério do Deus trinitário

cristão.

Sim, é uma alegria enorme dar um presente e

receber um presente, concretamente na época de

Natal. Mas essa alegria não provém tanto do

valor material do presente como desse saber que

consiste em sermos e estarmos nós próprios

presentes uns aos outros: ele lembrou-se de

mim, eu lembrei-me dele; eu lembrei-me dela,

ela lembrou-se de mim...

O pequeno presente oferecido é sinal,

símbolo, dessa presença calorosa, e exprime a

alegria de ser Homem, cuja dignidade infinita

reconhecemos em cada ser humano. Assim,

celebrar o Natal tem de ser também contribuir

para que se concretize o anúncio dos anjos aos

pastores, os mais pobres de entre os pobres de

então: "Nasceu para vós um salvador; Paz na

terra aos homens amados por Deus". É uma

vergonha para a Humanidade que hoje centenas

de milhões de pessoas passem fome e morram

de fome… O que se gasta em armamento, para

matar milhões, não deveria ser, se realmente se

entendesse o Natal verdadeiro, para dar

educação, comida, água potável, serviços

sanitários mínimos..., a milhares de milhões de

pessoas?...

Bom Natal! Natal feliz!

Sábado, 20 de Dezembro de 2025

domingo, 14 de dezembro de 2025

A RENOVAÇÃO DA IGREJA PARA A ALEGRIA DO MUNDO - Frei Bento Domingues, O.P. 14 Dezembro 2025

 

A RENOVAÇÃO DA IGREJA PARA A ALEGRIA DO MUNDO

Frei Bento Domingues, O.P.

14 Dezembro 2025

 

1. Segundo a Bíblia, tudo começou com a alegria da criação: Deus olhou para a sua obra e viu que era tudo bom. Com a criação do ser humano disse que era muito bom. A Bíblia não é ingénua, é uma biblioteca, uma construção simbólica de muitas gerações. O seu horizonte é o Apocalipse: o novo céu e a nova terra. Não é que alguém saiba, quando e como isto se realizará. No entanto, a esperança – essa pequenina virtude (Peguy) – é a alavanca da História pessoal e colectiva.

No meio de tudo, está Jesus Cristo. O grande escritor judeu, Amos Oz confessa: Li, pois, os Evangelhos e enamorei-me de Jesus, da sua visão, da sua ternura, do seu soberano sentido de humor, da sua franqueza, do facto de os seus ensinamentos se apresentarem tão cheios de surpresas e estarem tão cheios de poesia.

A Igreja absorveu o Profeta Isaías para anunciar a alegria no Advento. Situando-nos nesse horizonte, temos muito que acolher e que fazer: «O deserto e a terra árida vão alegrar-se, a estepe exultará e dará flores belas como narcisos. Vai cobrir-se de flores e transbordar de júbilo e de alegria. Tem a glória do Líbano, a formosura do monte Carmelo e da planície de Saron. Verão a glória do Senhor e o esplendor do nosso Deus. Fortalecei as mãos débeis, robustecei os joelhos vacilantes. Dizei aos que têm o coração pusilânime: Tende coragem, não temais! Eis o vosso Deus, que vem para vos libertar e vem em pessoa. Então, se abrirão os olhos do cego, os ouvidos do surdo ficarão a ouvir, o coxo saltará como um veado e a língua do mudo dará gritos de alegria. Chegarão a Sião entre cânticos de júbilo com a alegria estampada nos seus rostos, transbordando de gozo e de alegria; nos seus corações, não haverá mais tristeza nem aflição»[i].

São textos do passado insinuando os desejos do futuro. Durante muito tempo, tudo convergia para tornar a religião uma tristeza. Com João XXIII e o Vaticano II (1962-1965), começa a revalorização de todas as expressões da alegria. A seguir, vem um tempo de inverno, como disse Karl Rahner.

O Papa Francisco falava, com frequência, do divórcio entre o cristianismo e a cultura, que aconteceu na Igreja Católica a partir do código tridentino. Carlo Maria Martini (1927-2012), cardeal de Milão, já dizia, no século passado, que a Igreja estava atrasada 200 anos! Yve Congar (1904-1995) disse que a uma religião sem mundo sucedia um mundo sem religião. O mesmo se pode dizer entre a Igreja e o mundo da cultura.

Francisco, que teve as suas iras, sobretudo com o mundo eclesiástico, por aquilo que estragava a vida às pessoas e à própria Igreja, promoveu um encontro com cómicos de todo mundo (14.06.2024) e disse-lhes:

«No meio de tantas notícias sombrias, imersos como estamos em tantas emergências sociais e até pessoais, tendes o poder de espalhar a serenidade e o sorriso. Estais entre os poucos que têm a capacidade de falar com pessoas muito diferentes, de gerações e origens culturais diversas.

À vossa maneira, unis as pessoas, porque o riso é contagioso. É mais fácil rir em conjunto do que sozinho: a alegria abre à partilha e é o melhor antídoto contra o egoísmo e o individualismo. Rir também ajuda a abater as barreiras sociais, a criar ligações entre as pessoas. Permite-nos exprimir emoções e pensamentos, ajudando a construir uma cultura partilhada e a criar espaços de liberdade. Lembrais-nos que o homo sapiens é também homo ludens; que o divertimento lúdico e o riso são fundamentais para a vida humana, para nos expressarmos, para aprendermos, para darmos significado às situações.

O vosso talento é um dom, um dom precioso. Juntamente com o sorriso, difunde a paz, nos corações, entre as pessoas, ajudando-nos a ultrapassar as dificuldades e a suportar o stress diário. Ajuda-nos a encontrar alívio na ironia e a levar a vida com humor».

2. Para Maria Rueff e Rodrigo Francisco, este encontro «fez História porque pela primeira vez a Igreja reconhecia a importância dos cómicos, durante séculos perseguidos, condenados à fogueira pela Inquisição e considerados seres diabólicos e inferiores. Este gesto do Papa Francisco atribuía finalmente dignidade à arte da comédia, tantas vezes menosprezada, e que é juntamente com a tragédia um dos géneros fundadores do teatro»[ii].

Estes actores que, há 4 anos, partiram «à descoberta do riso» e reuniram um conjunto de textos sobre o humor, puseram em cena o Elogio do Riso, no Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada (Outubro/Novembro 2025).

Podia ter sido um encontro com o Papa sem especiais consequências, mas caiu em boa terra. O Elogio do Riso, além de outras referências, trata-se de um monólogo de Maria Rueff para que o riso nunca se apague. Este teatro teve o seu começo e o seu fim, mas provocou o sorriso de muita gente que pode deliciar-se com os textos sobre o humor reunidos a estre propósito.

Na Igreja portuguesa, como o Concílio não foi preparado, não foi seguido nem foi aplicado, restava o que o Cardeal Cerejeira dizia: a Igreja portuguesa já está muito à frente de tudo o que fizeram lá no Vaticano. Seria importante encontrar a história do humor inquietante, na Igreja dos diferentes países.

3. Diz-se que a alegria é uma emoção natural (por que não sobrenatural?) e positiva provocada por situações de satisfação e de prazer, que se expressa em reacções físicas e contagiantes como sorrir, rir ou pular.

O Natal é mesmo o riso de Deus. As situações hilariantes que envolvem a chegada do Emmanuel, o Deus connosco, são mais que muitas. Desde as anunciações a Maria e a José, seu esposo, até aos primeiros que acolheram esse Deus que veio habitar entre nós: os pastores, o grupo mais marginalizado em Israel, e os Magos, estrangeiros e visionários.

Klaus Berger, no seu livro, O Humor de Jesus, acrescentou o subtítulo: O mundo de pernas para o ar[iii]. De facto, o Natal é o mundo de pernas para o ar.

Os cristãos vão à Missa por causa de boas notícias, para interiorizarem o Evangelho. Hoje, são apresentadas, em contraste, duas grandes figuras históricas que estão na raiz do cristianismo: João Baptista e Jesus[iv].

Jesus reconhece a grandeza moral do seu antigo mestre: Entre os filhos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Baptista, acrescentando que o menor no Reino dos céus é maior do que ele. João queria uma reforma da religião e dos costumes; Jesus subverte não só a religião do templo e dos diferentes grupos religiosos como o próprio moralismo ascético de João Baptista.

A reforma religiosa proposta por João não vai muito além da moral e da ascese; Jesus, pelo contrário, é um humorista. Diverte-se a mostrar, em gestos e parábolas, que o amor que Deus nos tem não depende das práticas nem das instituições que arranjamos para lhe agradar. A sua alegria é outra e a nossa também.

Se lêssemos as narrativas do Novo Testamento sem beatices e reparássemos na ironia, no riso e no humor que as percorre, seria fácil descobrir quanto o Evangelho é divinamente divertido!

Boas Festas!

 



[i] Is 35, 1-11

[ii] Maria Rueff e Rodrigo Francisco, Elogio do Riso, Textos de Almada, 2025

[iii] Publicado pela Paulinas Editora, 2025

[iv] Mt 11, 1-14

sábado, 13 de dezembro de 2025

As mulheres na Igreja Católica - Discriminação intolerável Anselmo Borges Padre e Professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

As mulheres na Igreja Católica.

Discriminação intolerável

Anselmo Borges

Padre e Professor de Filosofia

"Se a verdade é mulher, não teremos razões para suspeitar que

todos os filósofos, na medida em que foram dogmáticos, pouco

entenderam de mulheres?" É com estas palavras que Nietzsche

inicia a sua obra Para Além do Bem e do Mal, escrita em Sils-

Maria, 1885.

É bem possível que esta afirmação se aplique não só aos

filósofos, mas também aos teólogos, e, em geral, aos dirigentes,

por princípio homens, da Igreja Católica.

Embora se não excluam traços maternos em Deus, a Bíblia

chama a Deus Pai e não Mãe. Em primeiro lugar, porque se vivia

numa sociedade patriarcal, e, depois, porque era necessário evitar

toda uma linguagem que lembrasse as deusas pagãs da fertilidade...

É claro que Deus não é sexuado; portanto, chamar-lhe Pai é

uma metáfora. Assim, tanto poderíamos dirigir-nos a ele como a

ela, isto é, tanto poderemos chamar-lhe Pai como Mãe. E

deveríamos, no meu entender, a partir do Evangelho, dirigir-nos a

Ele sempre como Pai-Mãe.

No Credo cristão, referimo-nos a Deus como Pai omnipotente

2

criador do céu e da terra. Não dizemos: Mãe omnipotente. Isso está

também vinculado à concepção da biologia grega, concretamente

aristotélica, que, no acto da geração, atribuía toda a actividade ao

sémen masculino. Portanto, a mulher era considerada

essencialmente passiva. Não se esqueça que o óvulo feminino só

em 1827 foi descoberto. Por isso, Tomás de Aquino dirá

expressamente que "a mulher é algo de falhado": de facto, de si, a

força activa do sémen está orientada para gerar uma realidade

plenamente semelhante, portanto, do sexo masculino; a geração do

feminino acontece devido a uma fraqueza. Daqui concluirá Tomás

de Aquino que por natureza a mulher é subordinada ao homem,

que os filhos devem amar mais o pai do que a mãe, que o

sacerdócio está vedado às mulheres, que as mulheres não podem

pregar, pois a pregação é um exercício de sabedoria e autoridade,

etc...

Estas e outras razões, como, por exemplo, influências gnósticas

e o celibato obrigatório dos padres, contribuíram para que a Igreja

Católica se tornasse altamente hierarquizada e masculinizada,

patriarcal. Note-se como a própria língua, que é sedimentação e

forma de um mundo, está, no referente à autoridade, estruturada de

modo machista: basta pensar que, se já nos não causa hoje

dificuldade ouvir falar em ministra, por exemplo, ainda constitui

autêntica “agressão” dizer, por exemplo, uma bispa...

Mas as mulheres não podem ser discriminadas na Igreja. Jesus

não as discriminou. A prova está em que teve discípulos e

discípulas, como testemunham muitos passos dos Evangelhos, e,

na Paixão, enquanto os discípulos (eles) fugiram, elas estiveram

junto à Cruz, e Maria Madalena foi determinante no cristianismo.

De facto, foi ela a primeira que, quando tudo parecia ter sido o fim,

reuniu outra vez os discípulos à volta da experiência avassaladora

de fé de que o Jesus crucificado está vivo em Deus, que é Amor.

Voltaram a reunir-se na fé em Jesus, o Vivente, e foram anunciar

que Ele é o Messias, o enviado de Deus como “o Caminho, a

Verdade e a Vida.” E testemunharam-no, dando a vida por isso. De

tal modo Maria Madalena foi determinante que até Santo

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Agostinho lhe chamou “a Apóstola dos Apóstolos”.

Também São Paulo fala com imenso respeito das suas

colaboradoras. Por exemplo, na Carta aos Romanos, escreve:

“Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que também é diaconisa na

igreja de Cêncreas, recebei-a no Senhor, de um modo digno dos

santos. Saudai Trifena e Trifosa, que se afadigam pelo Senhor.

Saudai Andrónico e Júnia, meus concidadãos e meus

companheiros de prisão, que tão notáveis são entre os apóstolos e

que, inclusivamente, se tornaram cristãos antes de mim”. Na Carta

aos Gálatas, 3, 26-29, escreve: “É que todos vós sois filhos de

Deus em Cristo Jesus, mediante a fé, pois todos os que fostes

baptizados em Cristo revestistes-vos de Cristo mediante a fé. Não

há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem

mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus.” Portanto, na

Igreja, e não só, há uma igualdade originária.

Jesus Cristo é, sem dúvida, quando se pensa a sério no que Ele

fez, disse, foi e é, a figura mais determinante da História da

Humanidade. São Paulo explicitou essa influência, a partir da sua

própria experiência pessoal, avassaladora, que se traduz naquela

conclusão: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre,

não há homem nem mulher.” Que experiência foi essa, que o levou

de perseguidor a Apóstolo, fazendo milhares e milhares de

quilómetros, com os meios precários da altura, para anunciar o

Evangelho? Há uma pergunta fundamental que Paulo faz: o que

vale um morto?, o que vale um morto, concretamente um

crucificado morto? Mas, ao fazer a experiência de fé de que esse

Jesus crucificado está vivo em Deus, conclui que Deus o

ressuscitou e, portanto, Ele vale para Deus, tem valor para Deus. E,

se Jesus crucificado, morto, vale para Deus, como mostra a

ressurreição, então todos valem, todos os homens e mulheres,

independentemente do sexo, da etnia, da religião, da idade, da cor,

valem para Deus, têm valor. Todos têm dignidade diante de Deus.

Já não há escravo nem livre, nem judeu nem grego, nem homem

nem mulher.

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Alguém conhece revolução maior na História do mundo, de

que lentamente se foi e vai tomando consciência, a ponto de se

proclamar a dignidade inviolável de todas as pessoas,

nomeadamente na Declaração Universal dos Direitos Humanos?

As comunidades cristãs celebravam a Eucaristia, lembrando Jesus,

a sua memória e reconheciam-no na partilha do pão, em refeições

festivas, e, pela primeira vez, senhores e escravos, homens e

mulheres, judeus e gregos se sentaram todos à mesma mesa. E

quem presidia era o dono ou a dona da casa, que recebiam a

comunidade. Mas, com o tempo, a Igreja tornou-se uma estrutura

de poder e aí tudo se transformou, chegando-se ao cúmulo

daquelas celebrações da Ceia de Jesus que já nada têm de fraterno,

pois mais parecem cerimónias das cortes imperiais. Naqueles

longos pontificais com pompa imperial, adornos de ouro e pedras

preciosas, vestimentas luxuosas que por vezes até rondam o

ridículo, em que participam inclusivamente patifes e ladrões sem o

mínimo propósito de emenda nem conversão, alguém se lembra da

Última Ceia de Jesus? Quem preside? Os “senhores”, donos de

Deus e do sagrado. Evidentemente, as mulheres foram ficando

excluídas da presidência. E, lentamente, a revolução evangélica de

Jesus, da radical igualdade de todos, teve de ser proclamada fora

da Igreja oficial e ser-lhe imposta de fora a ela, como aconteceu

com as proclamações dos direitos humanos...

O saudoso Papa Francisco estava convencido de que “é

necessário ampliar os espaços para uma presença feminina mais

incisiva na Igreja. As mulheres formulam questões profundas que

devemos enfrentar.” Disse às religiosas: “Não às criadas. Nenhuma

de vós se faz freira para ser uma servente dos padres.” Em Julho de

2016, nomeou uma comissão igualitária de homens e mulheres

para estudar o papel das mulheres na Igreja primitiva. A comissão

terminou o seu trabalho sem acordo e ele acabou por comunicar no

Encontro internacional das religiosas que, sobre o caso do

diaconado, “temos de ver o que havia no início da Revelação. Se o

Senhor não nos deu o ministério sacramental para as mulheres, a

coisa não dá. Por isso, estamos a investigar a história”. Francisco

5

não fechou a porta, mas ficou atado com a questão do diaconado

como sacramento ou não para as mulheres. Quanto à ordenação

sacerdotal, estava, ele próprio, sob o receio de violar a

determinação do Papa João Paulo II que, segundo parece, quis

colocar a proibição definitiva, empenhando a infalibilidade.

Aqui precisamente, chegámos ao nervo do problema,

problema nuclear da Igreja, porque está na base do clericalismo e

do carreirismo, “a peste da Igreja”, como denunciou Francisco.

Foi o maior exegeta católico do século XX, professor da

Universidade de Tubinga, Herbert Haag, que, nas nossas conversas

sempre iluminantes para mim, me ensinou que Jesus não ordenou

ninguém “in sacris”, nem homens nem mulheres. Na Igreja, há

funções, ministérios (Autrag), mas não há ordenação sacra

(Weihe). Todo o povo de Deus pelo baptismo é Povo sacerdotal,

mas não há sacerdotes. Toda a Igreja é ministerial, mas o Novo

Testamento evitou a palavra hiereus (sacerdote) e, entre os

carismas (dons do Espírito Santo), não se refere o sacerdócio.

Neste enquadramento, Pepe Mallo foi ao essencial, quando

escreveu: “Porque é que se há-de sacramentalizar os ministérios? É

evangélico sacralizar (ordenar ‘in sacris’) as pessoas? Não se

deverá dissociar ‘ordenação’ e ministério’? É certo que Jesus não

ordenou mulheres, mas também não ordenou homens, e, menos

ainda, no sentido, aspecto e categorias de que desfrutam hoje os

clérigos. Jesus não instituiu nenhum sacramento da ‘Ordem

Sagrada’, nem para mulheres nem para homens. As funções de

diáconos e diaconisas, bem como de presbíteros e bispos de que

falam as Cartas no Novo Testamento eram pura e simplesmente

ministérios da comunidade e para a comunidade. Não eram

dignidades e privilégios de supremacia e domínio.” Na Igreja, tem

de ser respeitada a dignidade de todos, mas não há dignidades nem

dignitários.

Jesus dizia no Evangelho: “Tomai cuidado com os fariseus e

os doutores da Lei, que gostam de exibir longas vestes, de ser

cumprimentados nas praças, de ocupar os primeiros lugares nas

sinagogas e nos banquetes. Vós sois todos irmãos.” Voltando às

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primeiras comunidades, é preciso reconhecer o sacerdócio de todos

os baptizados, homens e mulheres, e, assim, proclamar e exigir a

igual dignidade de todos. Mas, se as mulheres, nas suas justíssimas

exigências de tratamento igual, apenas reclamassem o poder dos

homens na Igreja, então teríamos o mal acrescentado: ao mal do

clericalismo machista acrescentar-se-ia o do feminiclericalismo.

Julgo que era este o receio do Papa Francisco, quando criticava

algum feminismo como “machismo de saias”.

E peço sinceramente desculpa pela repetição, mas penso que

estamos no núcleo do Evangelho. Repito: a discriminação das

mulheres pela Igreja oficial constitui um escândalo e um pecado.

De facto, é contra os direitos humanos e a vontade de Jesus.

É urgente, portanto, desfazer equívocos, para ir ao essencial. O

próprio Papa Francisco, repito, sentia-se impedido de colocar a

questão, argumentando que “o sacerdócio é reservado aos varões,

como sinal de Cristo Esposo que se entrega na Eucaristia”. Como

responder? Sim, Jesus é a visibilização em humanidade de Deus,

mistério indizível. O Evangelho segundo São João escreve que o

Verbo (o Logos, Palavra) se fez carne (em grego, sarx),

humanidade frágil. Sim, Jesus é homem, mas, como faz notar

Marta Zubía, o que o Evangelho quer dizer é que o Verbo se

humanizou, não que se varonizou, que “se fez homem (anthropos,

homo) e não que se fez varão (aner, vir). Deus não se humanizou

na sexualidade de Jesus, mas na sua pessoa, na sua humanidade.

Esta redução, agravada pelo uso exclusivo de linguagem e imagens

masculinas, leva a considerar a masculinidade, pelo menos na

prática, como uma característica essencial do próprio Deus.”

Neste sentido, há quem argumente também que na Última Ceia

só havia homens, os Apóstolos — afirmação muito discutível — e

que só a eles foi entregue o governo da Igreja. O teólogo Herbert

Haag respondia que então, uma vez que todos eram judeus, a Igreja

só poderia ordenar judeus!...

Jesus trouxe por palavras e obras, repito, a melhor notícia que a

Humanidade teve: Deus é bom, Pai-Mãe e todos os homens e

mulheres são seus filhos e, portanto, irmãos. Isso era intolerável

7

para os interesses do Templo e do Império, que se coligaram para o

julgar e assassinar. Assim, e é decisivo sublinhar isso, Jesus não foi

vítima de Deus, mas dos homens. Que Deus seria esse que teria

precisado da morte do Filho para aplacar a sua ira? Note-se que

Joseph Ratzinger, quando era só professor, escreveu que recusava

acreditar que Deus se tornou “misericordioso” só depois de ver

satisfeita a sua “vingança”. Opondo-se à teologia da “satisfação”

que situava a cruz “no interior de um mecanismo de direito lesado

e restabelecido”, rejeitou a noção de um Deus “cuja justiça

inexorável teria exigido um sacrifício humano, o sacrifício do seu

próprio Filho. Esta imagem, apesar de tão espalhada, não deixa de

ser falsa”.

Mais uma vez, foi também Herbert Haag que mostrou que as

primeiras comunidades cristãs celebravam a Eucaristia, um

banquete festivo, recordando a memória de Jesus, o que Ele disse e

fez, a sua morte e ressurreição, e aprofundando o seu compromisso

com a realização desde já do Reino de Deus... Quem presidia era

um cristão ou uma cristã com uma casa melhor para se juntarem —

não havia igrejas ou basílicas... Foi com a interpretação da

Eucaristia como sacrifício e não como dom que surgiram os

sacerdotes, com uma ordenação sacra, o que levou, contra a

vontade de Jesus que disse: “sois todos irmãos”, à divisão da Igreja

em duas classes: clero e leigos. Evidentemente, as mulheres, por

causa da impureza ritual, ficavam excluídas... E impôs-se o

clericalismo patriarcal a justificar a exclusão, de tal modo que

ainda me lembro de um bispo na Bélgica que, quando já tinha

esgotado todas as razões para excluí-las da ordenação, atirou: “As

mulheres existem para criar filhos e não para sacrificar o Filho de

Deus” ...

Voltei ao tema, mais uma vez, porque acaba de ser publicado o

resultado da segunda comissão do Sínodo para o estudo sobre o

diaconado feminino, que, também com o apoio do Papa Leão XIV,

acaba, pelo menos por agora, com a sua possibilidade — da

possibilidade da ordenação presbiteral ou episcopal das mulheres

nem se fala...

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Só posso lamentar, fazendo minhas as palavras da conhecida

teóloga Consuelo Vélez: “Que vergonha! A Igreja que pede à

sociedade civil justiça, equidade, inclusão, igualdade, é incapaz de

avançar no seu seio com as mudanças necessárias para tornar isso

realidade no que se refere às mulheres.” E as de outra grande

teóloga, Isabel Gómez Acebo: “Surpreende-me e dá-me pena que a

instituição que pretende seguir as instruções de Jesus Cristo não o

faça.”

Sábado, 13 de Dezembro de 2025

A dúvida: quem errou o caminho? - P. Manuel João Pereira Correia mccj

 A dúvida: quem errou o caminho?

Ano A – Advento – 3.º Domingo (Gaudete)
Mateus 11,2-11: «És tu aquele que há de vir ou devemos esperar outro?»

A temática do terceiro domingo do Advento é sempre a vinda do Senhor e o caminho que Ele deverá percorrer para vir ao nosso encontro. Todas as leituras falam disso abundantemente e com diversas tonalidades. «A vinda do Senhor está próxima!», repete Tiago na segunda leitura (Tg 5,7-10). A Palavra procura despertar os últimos céticos, indecisos ou indiferentes.

A liturgia de hoje convida-nos a despir as vestes penitenciais e a revestir-nos com trajes festivos. É o domingo da alegria: “Gaudete”, alegrai-vos! Se lermos a primeira leitura (Is. 35) com um coração simples e disponível para se deixar consolar, não podemos permanecer indiferentes a esta profecia de Isaías. Ela apresenta-nos uma visão da realidade que respira alegria, beleza, leveza, entusiasmo… Um texto da Escritura onde valeria a pena colocar um marcador para o reler nos momentos sombrios e tristes!

A dúvida de João Batista

Neste terceiro domingo, João Batista continua em cena, mas o contexto muda radicalmente. Já não é o homem livre que clama no deserto. Está na prisão. O rei Herodes (um dos três filhos de Herodes, o Grande, que haviam dividido o reino) mandou prender o profeta. Quer controlar a Voz. Ela tornara-se subversiva, uma ameaça ao seu poder. A Voz é sufocada e, mais tarde, silenciada, mas não domesticada. Permanecerá livre até ao fim!

Mas… surge um perigo ainda mais subtil para a Voz: a dúvida! No silêncio da prisão chega o eco das «obras de Cristo», muito diferentes daquelas que João Batista esperava. Jesus não se apresenta com o machado para cortar a árvore, nem com a pá para limpar a eira (cf. ver o evangelho do domingo passado). João, herdeiro de Elias, o profeta inflamado pelo fogo do zelo, parece desautorizado: nem a árvore má nem a palha são lançadas ao fogo! O «dia da vingança» não chega! E a dúvida insinua-se.
Quem errou o caminho? Jesus, que veio por outra via? Ou João Batista, o mestre-de-obras, que interpretou mal as instruções para preparar o caminho? Trata-se de uma dúvida inquietante e dramática. Está em jogo não só o sentido da vida e da missão de João, mas também a própria identidade de Javé!

«És tu aquele que há de vir ou devemos esperar outro?»

Palavras estranhas, até escandalosas, de uma seriedade desesperada — comenta o conhecido monge trapista e escritor Thomas Merton. 
Jesus responde aos enviados de João com o elenco das suas obras: «Ide contar a João o que ouvis e vedes: os CEGOS recuperam a vista, os COXOS andam, os LEPROSOS são purificados, os SURDOS ouvem, os MORTOS ressuscitam e aos POBRES é anunciada a Boa Nova!»

Seis obras! Porquê seis e não sete, o número da perfeição? Falta uma obra! Qual será? O futuro da sua missão ainda estava aberto e, portanto, incerto, e Jesus permanece à espera da última Obra do Pai. E, mesmo que a conhecesse, não poderia revelá-la a João: tê-lo-ia conduzido ao espanto e à escuridão totais.
Porque a última Obra será a Cruz, a derrota do Messias esperado e o triunfo do Amor. Teria sido um escândalo demasiado grande também para o profeta, «o maior entre os nascidos de mulher». De facto, também para Jesus, «o menor no Reino dos Céus», que veio ocupar o último lugar, o do Servo, não foi fácil aceitá-la: «Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice!» (Mt 26,39).

As nossas dúvidas

A dúvida! É o verme que pode minar a solidez da nossa fé. É preciso dizer, porém, que existem dúvidas maléficas, que nos paralisam, e dúvidas saudáveis, que nos impulsionam à procura e ao crescimento. E todas elas podem coexistir no nosso coração.

Há quem não tenha dúvidas, porque se conforma com a opinião comum veiculada pelos meios de comunicação social. Outros não têm dúvidas porque veem o mundo apenas a duas cores: branco e preto. Têm ideias claras e distintas: de um lado a verdade, o bem, os bons; do outro a mentira, o mal, os maus — a combater, até mesmo em nome de Deus.

Outros duvidam de tudo e de todos: uma dúvida sistemática. Têm sempre algo a criticar. É a atitude de quem se considera juiz e espectador da realidade que o rodeia. É uma forma de descompromisso. Outros ainda ficam bloqueados por uma dúvida paralisante, incapazes de discernir, devido à complexidade das situações ou à indecisão e ao medo do risco.

Seria oportuno interrogarmo-nos se nos encontramos numa destas categorias, pois nelas a esperança não pode germinar.

Mas qual é, afinal, a dúvida do Batista? De onde provém? É importante perguntá-lo. João esperava um messias que viesse pelo caminho da JUSTIÇA, um juiz que castigasse os ímpios e recompensasse os bons. Jesus, porém, chega por outra estrada: a da MISERICÓRDIA. Também João Batista era chamado a mudar de caminho, a converter-se.

Mas não será que também nós esperamos o messias pelo caminho da justiça? Que ponha um pouco de ordem no nosso mundo e nesta sociedade? Que mostre claramente que «nós temos razão», que estamos do lado certo? Se assim for, o Advento, de tempo de esperança, transformar-se-á num tempo de desilusão. Eis porque Thomas Merton afirma: «É importante recordar a profunda e, de certo modo, angustiante seriedade do Advento

A bem-aventurança do nosso tempo

Jesus conclui a sua resposta a João com uma bem-aventurança:
«Feliz aquele que não se escandalizar por minha causa!»
É a décima que encontramos no Evangelho de Mateus. Talvez seja a bem-aventurança do nosso tempo, em que o cristão navega contra a corrente. Penso no debate cultural em curso sobre algumas escolhas éticas ou no debate intraeclesial sobre temas controversos. É difícil ver com nitidez os contornos dos problemas e entrever soluções. Para não falar dos escândalos.

É um tempo em que muitos são tentados a abandonar a «Barca», confusos, feridos, desiludidos, escandalizados… Então surge aquela pergunta desafiante que Jesus dirigiu aos seus quando muitos o abandonaram após o discurso de Cafarnaum (Jo 6):
«Quereis ir embora também vós?»
A nossa resposta só pode ser a de Pedro:
«Senhor, para quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna. E nós acreditámos e reconhecemos que Tu és o Santo de Deus.»

P. Manuel João Pereira Correia mccj
p.mjoao@gmail.com
https://comboni2000.org

 

domingo, 7 de dezembro de 2025

Advento: o que significa e como viver esse tempo? - P. Manuel João Pereira Correia, mccj

 Advento: o que significa e como viver esse tempo?

O Advento é um tempo de preparação para o natal do Senhor Jesus, por isso ele é cheio de esperança.
E essa virtude não nos decepciona, porque, como diz São Paulo, ela foi derramada em nossos
corações pelo Espírito Santo! (Cf. Rm 5,1-6).
Então, temos a certeza de que alcançaremos dias melhores, mais alegria, ânimo e um ano sob a
bênção de Deus, uma vez que o Advento nos proporciona tudo isso por causa da celebração do
nascimento de Cristo.
Mas é preciso uma boa preparação! Não se participa de uma grande festa de qualquer jeito e o
Advento nos traz novas vestes para o coração. Por isso, preparamos este post para relembrar a
importância desse tempo e como vivê-lo bem. Confira!
Advento - tempo de uma espera feliz!
A palavra “advento” vem do latim adventus e significa: chegada, aproximação, vinda. Para a vida
cristã, o Advento é um tempo antes do Natal. Logo, nos prepara para o natal do Filho de Deus, a
segunda maior festa cristã e com isso inicia um novo ano litúrgico na Igreja.
A Tradição da Igreja diz que a vivência do Advento entre os cristãos começou entre os séculos IV e
VII em vários lugares do mundo. No final do século IV na Gália (atual França) e na Espanha, tinha
caráter penitencial, e durava 6 semanas, como na Quaresma (quaresma de São Martinho).
No entanto, esse caráter penitencial se devia à preparação dos candidatos para o batismo na festa da
Epifania. Apenas no final do século VII, em Roma, é acrescentado o aspecto escatológico do Advento,
recordando a segunda vinda do Senhor.
Após a reforma da liturgia, o Advento passou a ser celebrado nos seus dois aspectos: a vinda
definitiva do Senhor e a preparação para o Natal, mantendo a tradição das 4 semanas. A Igreja
sabiamente preservou a dimensão escatológica deste tempo.
Características do Advento
Como vimos a pouco, o Advento nos prepara para celebrar duas verdades de nossa fé: a primeira é o
nascimento de Jesus em Belém; e a segunda é a esperança de Sua vinda definitiva como nos
prometem as Escrituras e a Igreja.
Para isso, o Advento possui quatro domingos. Os dois primeiros nos preparam para a segunda vinda
de Cristo; o terceiro é o domingo da alegria - gaudete, em latim; e o quarto antecede a solenidade do
nascimento de Cristo.
A solenidade do nascimento de Jesus marca o início da vida cristã na história e, no calendário
litúrgico, começa um novo ano para a Igreja e todos os cristãos. Logo, o Advento vem revestido de
alegria, esperança, expectativa e pobreza evangélica que nos faz irmãos.
Mas a Igreja nos ajuda a viver este tempo através dos sinais, das cores, das vestes, dos símbolos. Tudo
com um significado próprio e cheio de sentido para nos ajudar a rezar e preparar o coração para
iniciar um novo ano litúrgico.
Sinais importantes do Advento
Assim como uma grande festa pede uma grande preparação, da mesma forma acontece com o
Advento, porque ele nos prepara para o Natal. Logo, tudo muda e a transformação é visual, vemos
pelos sinais que a Igreja nos apresenta. Vamos a eles:
https://comboni2000.org 1
Mudança das cores: o roxo é a cor do Advento e da Quaresma. Significa penitência, mas não
tristeza, porque temos a certeza de que a alegria virá ao nosso encontro. Então, a veste do
padre (Casula e estola) e alguns paramentos litúrgicos são roxos.
Pouco uso de flores: se na Quaresma não usamos nenhuma flor, no Advento usamos um
pouco menos. Não é proibido, mas diminuído, uma vez que ainda aguardamos o natal do
Senhor.
Não cantamos o glória na Missa. Esse louvor acontecerá na noite do Natal junto com os
sinos da Igreja, lembrando o canto dos anjos aos pastores na gruta de Belém
O presépio é outro sinal deste tempo. Ele é montado no primeiro domingo do Advento e fica
até a Epifania em janeiro. São Francisco de Assis é quem fez o primeiro presépio do mundo e
até hoje essa tradição nos acompanha.
Também a árvore é um símbolo do Natal. De acordo com a Igreja Católica, ela representa a vida, já
que, durante o inverno do Hemisfério Norte, época em que ocorre o Natal por lá, o pinheiro é a única
árvore que não perde suas folhas.
Então, ornamentamos a árvore para simbolizar que a vida que nasce nunca morrerá, ainda que haja
inverno, escuridão ou qualquer dificuldade que esconda a luz, Cristo é a nossa luz e ilumina nossa
vida para sempre.
Coroa do Advento
Além dos sinais citados, há outro bem próprio desse tempo que é a coroa do Advento. Ela é simples,
feita de ramos verdes, em círculo, com quatro velas de cores diferentes: branca, verde, vermelha e
roxa, que são acesas em cada domingo nos conduzindo a Cristo.
O formato da coroa do Advento em círculo significa a eternidade de Deus, sem início e sem fim, e as
velas coloridas trazem um significado especial nesta ordem:
A primeira vela significa a Encarnação, Jesus Histórico; a segunda, Jesus nos pobres e necessitados; a
terceira, Jesus nos Sacramentos; a quarta, Parusia: segunda vinda de Jesus. Cada cor é acesa em um
domingo diferente até que cheguemos à celebração do Natal de Jesus.
As velas nos remetem à luz maior que é Cristo e ao mistério de sua encarnação. Agora a preparação
da casa acompanha a do coração. Logo, vamos abraçar a espiritualidade do Advento, começando pela
Palavra de Deus.
Personagens bíblicos neste tempo de espera
A Igreja, como uma boa mãe, se preocupa com a fé de seus filhos(as) e por isso organiza as leituras
das Escrituras com três personagens que nos ajudam a acolher e viver bem a espiritualidade da espera.
Vamos conhecê-los:
O profeta Isaías é um dos personagens bíblicos que nos acompanha. Ele é visto como o profeta da
esperança, pois alimenta a fé do povo de Deus e anuncia a vinda do Messias através de um virgem (cf.
Is 7,14), assim nossa fé também é renovada por ele.
Outro personagem do Advento é João Batista (cf. Jo 1,29). Ele é o modelo de uma vida que sabe
esperar as promessas de Deus e anunciar a chegada do Salvador. Sua fé, assim como a nossa, é
fundamentada no Messias e na esperança de Seu Reino de paz e de alegria.
A terceira e importante figura do Advento é a Virgem Maria (cf. Lc 1,26). Ela é a escolhida para ser
a mãe do Salvador; o grande modelo de coração que acolheu a Palavra e gerou Jesus para o mundo até
que Ele chegasse em cada um de nós e nossas famílias.
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Espiritualidade desse tempo de esperança
Agora que sabemos mais sobre o Advento, vamos preparar nossa vida para o Natal do Senhor. A
primeira atitude é a de esperança, de alegria serena e uma fé confiante. A segunda, é de vigilância,
porque estamos à espera do Senhor que vem ao nosso encontro.
Assim, a espiritualidade do Advento é marcada por algumas atitudes essenciais que são frutos da vida
de Cristo entre nós; e que fazem do coração humano uma manjedoura cheia de amor para acolher a
Sagrada Família na noite de Natal.
1. A oração sem a qual não há transformação do coração. E nesse tempo, a liturgia diária é o
melhor roteiro para esse encontro pessoal com Deus;
2. A penitência e o jejum são duas atitudes que provam nosso desejo de mudança. Por isso,
escolha algo para oferecer a Deus durante as quatro semanas do Advento;
3. A novena de Natal junto com a família. É fundamental rezar em família já que o Natal
favorece a aproximação e a reconciliação entre nós.
4. O exercício do perdão pela confissão e pelo perdão àqueles que nos ofenderam, é
fundamental a fim de começar um novo ano sem dívidas emocionais e com Jesus no centro de
tudo.
Tempo de solidariedade fraterna
É comprovado que o mês de dezembro é reservado para as confraternizações, festas, troca de
presentes; é um mês que marca o fim de um tempo e o início de outro. Tudo isso faz parte da vida
humana, circula na sociedade e movimenta o comércio.
Mas, para o cristão, o Natal não é apenas isso. Esta celebração é carregada de sentido, nos preenche
de um amor diferente, de um espírito de paz e alegria que não se explica com palavras humanas, mas
nos envia para praticarmos o bem ao próximo.
Se o Advento nos envia para o Senhor, nos atrai também para o próximo, porque no irmão carente -
em todos os sentidos - encontramos o Cristo, que precisou de um estábulo para nascer, mas teve o
conforto e a presença de seus pais.
Por isso, que não há Natal sem solidariedade, principalmente com os mais vulneráveis, aqueles que
não têm como retribuir, como nos ensina o Senhor. Logo, lembramos dos migrantes e refugiados,
nossos irmãos que esperam dias melhores, em uma nova pátria.
Portanto, que a chegada do Natal nos faça missionários do grande amor de Deus através de gestos
concretos de solidariedade e ajuda aos irmãos migrantes e refugiados que encontramos no caminho.
https://scalabrinianos.com - P. Manuel João Pereira Correia, mccj